Em 2026, "poliéster" tornou-se uma palavra feia Tudo o que precisa de saber sobre moda consciente e moda sem plástico

Após anos em que o greenwashing — a prática de usar em excesso termos como "sustentável", "natural", "impacto zero" na publicidade — dominou o marketing, as marcas de moda e as maisons de luxo parecem hoje estar a deslocar o seu foco do bem-estar do Planeta para o do indivíduo. A saúde é, afinal, a nova obsessão dos consumidores, uma tendência que se reflete cada vez mais nas suas escolhas de compra. Se há não muito tempo as pessoas se perguntavam quão sustentável era uma peça de roupa para o ambiente, hoje a questão é quão benéfica pode ser para o nosso corpo.

A estética clean girl — cabelo apanhado com gel, leggings e tops curtos — aliada à ascensão de desportos como a corrida e o hiking, impulsionou o athleisure ao pináculo do sucesso, transformando o sportswear num fenómeno de moda global. Mas esse mesmo sucesso está a ajudar a trazer à superfície um novo fenómeno: a guerra ao poliéster.

Nas redes sociais e nos fóruns online, fala-se cada vez mais de forever chemicals — substâncias químicas sintéticas frequentemente associadas a materiais técnicos que persistem no ambiente durante muito tempo, podem contribuir para a disseminação de microplásticos e estão a levantar novas questões sobre a relação entre o que vestimos e a nossa saúde. E assim, à medida que a atenção dos consumidores se desloca da sustentabilidade ambiental para a segurança dos materiais, nasce uma nova palavra de ordem: a moda plastic-free.

O que significa vestir-se de forma limpa?

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Em 2026, a estética clean girl tem um significado muito diferente do que tinha outrora. Hailey Bieber e as suas seguidoras parecem ter percebido que se pode fazer Pilates e máscaras faciais até cair, mas passar o dia envolta em tecidos sintéticos pode causar tanto dano à saúde quanto uma refeição de fast food.

Em conversa com profissionais de relações públicas, gestores de marca e agentes de comunicação, Shayeza Walid escreve no BoF que o tema está a conquistar um número crescente de marcas que antes apostavam mais na sustentabilidade para vender. Com 84% dos consumidores americanos a considerar o bem-estar uma das suas principais prioridades no dia a dia, observa Walid, "as marcas sustentáveis estão a repensar a forma como comunicam valor neste contexto, colocando em primeiro plano atributos que os consumidores conseguem compreender de imediato, como a respirabilidade, a suavidade ou os produtos isentos de químicos."

Esta parece ser precisamente a principal atração da tendência do clean ou healthy dressing (que soa mais a molho de salada do que a uma forma de se vestir): a preocupação com o planeta é hoje percebida como um fardo demasiado pesado para um único consumidor suportar — alguém que, no máximo, pode recusar uma palhinha de plástico enquanto os milionários e as grandes empresas tecnológicas esgotam todos os recursos ambientais restantes no mesmo período de tempo. O bem-estar pessoal, por outro lado, é uma questão muito mais acessível e que proporciona benefícios imediatos.

E mesmo que o uso de materiais orgânicos não equivalha diretamente a uma produção sustentável — dado o desperdício energético nas cadeias de abastecimento de recursos como o linho, a seda e o algodão — se o clean dressing for suficiente para que as marcas de moda sustentável atraiam novos clientes, não vão hesitar. "Comemos produtos orgânicos, porque não os vestimos?" lê-se no texto da publicação acima da Stella McCartney.

A guerra ao poliéster

No TikTok, no Instagram e no Twitter, uma simples pesquisa pela palavra-chave "poliéster" traz à superfície centenas de publicações a criticar o material. Os utilizadores afirmam que usar roupa sintética pode ter efeitos negativos no corpo, tanto a nível superficial — causando imperfeições na pele — como a nível hormonal, chegando mesmo a afetar as taxas de fertilidade. No entanto, tal como a internet está repleta de estudos que demonstram os danos que o material causa ao corpo humano, existem igualmente muitos outros que minimizam a sua gravidade.

Uma das principais razões pelas quais os consumidores estão a prestar mais atenção à composição das suas roupas pode ser o aumento do custo do vestuário, impulsionado pelas tarifas nos Estados Unidos, a sobretaxa nas matérias-primas e as complicações que a cadeia de abastecimento tem enfrentado em resultado dos conflitos políticos globais. Perante preços elevados, os consumidores começam a exigir mais: maior transparência, maior qualidade. O primeiro material a ser escrutinado pelos clientes — o mais popular e o mais fácil de identificar numa etiqueta — é o poliéster.

Mas artigos como Fashion's Complicated Poly-Relationship na Vogue Business explicam na perfeição por que razão o poliéster não deve ser demonizado: embora seja verdade que sempre foi o material de eleição das empresas de fast fashion e que é uma fibra sintética feita a partir de plástico, é também um dos tecidos mais duráveis, resistentes à água e elásticos do mercado. O que o torna, em certos aspetos, mais sustentável do que uma fibra orgânica destinada a decompor-se ou a desfiar-se após a primeira lavagem.

Kyle Macneill, o autor do artigo da Vogue Business, salienta que a Issey Miyake utiliza um tipo de poliéster "premium" para a coleção Pleats Please, proveniente de fabricantes de luxo japoneses. Apesar da existência de diferentes variedades, formou-se em torno do material um estigma difícil de contornar — seja quando envolve fibra reciclada, seja quando se trata do uso de uma pequena percentagem do material para garantir a elasticidade ou a resistência à água de uma peça.

É notável como uma palavra de ordem — tal como o já ultrapassado "green" — pode reescrever o destino de um tecido inteiro. Agora é a vez do clean dressing e do plastic-free, mas talvez, num futuro não muito distante, o poliéster consiga roubar o trono: basta uma boa estratégia de relações públicas e um par de influenciadores.

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