
Não ande por aí a chamar a Uniqlo fast fashion Mesmo que os dados digam o contrário
Primeiro surgiu a bolsa lunar ultraviral, que atingiu o primeiro lugar no Índice Lyst em 2023, depois toda a linha Airism, seguida das coleções anuais com J.W. Anderson. Em poucos anos, a Uniqlo deixou de ser o símbolo do minimalismo japonês para uma verdadeira potência no sistema de moda, com a ambição de sacudir a marca de fast fashion. No final de 2024, o anúncio de que Clare Waight Keller, antiga diretora criativa da Givenchy e da Chloé, assumiria a direção criativa das principais linhas da marca, incluindo a nova linha Uniqlo: C, marcou uma viragem radical. Um movimento que pode parecer surpreendente, considerando a distância entre as Maisons parisienses e a produção em massa da Uniqlo, mas torna-se compreensível quando enquadrado dentro de duas tendências paralelas: por um lado, a crise no luxo e a crescente pressão sobre os diretores criativos, e por outro, a ascensão da marca japonesa, determinada a tornar-se a maior fabricante de vestuário do mundo.
Tal como salientado numa análise recente da New Yorker, a Uniqlo não segue a lógica fugaz das suas cadeias rivais. “Sem logótipos, sem lantejoulas, sem babados”, explicou Waight Keller, “nem mesmo um decote assimétrico”. Enquanto a Zara, a H&M e a COS pretendem assemelhar-se tanto quanto possível à moda sazonal, a Uniqlo centra-se na ideia de “intemporalidade”, uma filosofia que se traduz em peças essenciais, desenhadas para se adaptar a cada corpo e a cada contexto, mais próxima da lógica de uma infraestrutura cultural do que a de uma coleção de moda sazonal. É o que a empresa chama LifeWear, um conceito deliberadamente vago algures entre o branding e a utopia, apresentando produtos como “roupas que melhoram a vida das pessoas” e refletindo a ambição do grupo em se tornar um sistema cultural bem como uma marca de moda.
A Uniqlo como a marca das pessoas
@dillafitya i love uniqlo #uniqlo #fashion #fyp @UNIQLO Indonesia original sound -
Aliás, como se pode ver nas redes sociais, toda a gente adora a Uniqlo, absolutamente toda a gente. Quer sejam aqueles que vivem num luxo tranquilo, os fãs do vestuário de trabalho japonês, os obsessivos gorpcore, ou mesmo aqueles que aderem à estética do ópio, algures entre Rick Owens e Chrome Hearts, todos eles usam o básico da marca japonesa. Waight Keller descreveu a mudança da alta moda para o design para as massas como libertadora: “Na minha carreira, nunca tinha trabalhado num modelo maior do que num tamanho pequeno. Na Uniqlo, tenho de pensar em corpos reais, necessidades geracionais, geográficas, mesmo climáticas.” Esta “democracia” do design é a chave para o sucesso global da Uniqlo mas, ao mesmo tempo, o seu maior paradoxo. A produção anual ultrapassa as centenas de milhões de peças de vestuário, e embora a empresa rejeite a marca de fast fashion, citando a durabilidade e a “sustentabilidade emocional” dos seus produtos, é inegável que o problema ambiental não reside na vida útil das roupas, mas no seu volume absoluto.
Apesar de a marca não divulgar os seus volumes de produção, o crescimento do grupo confirma esta dinâmica. A Fashion Network informa que a Fast Retailing, holding que controla a Uniqlo, fechou o primeiro semestre do ano fiscal de 2024 com fortes resultados: a receita consolidada subiu 12% para 1,79 biliões de ¥( cerca de 11 mil milhões de euros), enquanto o lucro operacional aumentou 18,3% para 304,22 mil milhões de ¥. O lucro líquido saltou para 233,5 mil milhões de ¥195.9 mil milhões no ano anterior, elevando as previsões para o ano inteiro para ¥3.4 biliões em receitas (9.5%) e ¥545 mil milhões em lucro operacional (8.8%). O crescimento foi impulsionado pelos mercados do Japão, América do Norte, Europa e Sudeste Asiático, enquanto a China Continental continua a ser o principal ponto fraco, com uma queda de 4% nas receitas e uma queda de 11% no lucro, em grande parte devido à fraca procura e dificuldades em adaptar os produtos às acentuadas diferenças climáticas regionais.
Entre a utopia e a realidade
i keep trying to swear off fast fashion but uniqlo has me by the throat
— rachel (@5i2ish) September 11, 2025
Os resultados confirmam que a força da Uniqlo reside na sua capacidade de se posicionar como uma infraestrutura universal do dia a dia, uma marca que veste toda a gente, desde blusas de caxemira de 99 dólares a casacos térmicos, e que, graças a volumes maciços, consegue oferecer uma relação qualidade-preço que é difícil de replicar. Ao mesmo tempo, porém, emergem os limites de um modelo que vive na contradição entre a retórica da durabilidade e a realidade da produção industrial desenfreada. Definir-se como “o oposto da fast fashion” funciona do ponto de vista da comunicação, mas corre o risco de obscurecer o facto de que o problema não é a qualidade das peças de vestuário mas a escala em que são colocadas no mercado.
O paradoxo é que cada novo bilião em receita, cada novo mercado conquistado, reforça a ideia de que a sua força reside em ser onipresente e intercambiável, mas ao mesmo tempo aproxima a marca do risco de se tornar o símbolo de um novo tipo de fast fashion, menos chamativo mas igualmente invasivo. O futuro da marca dependerá da sua capacidade de transformar o seu poder industrial numa forma de responsabilidade concreta, indo além dos slogans e abordando a questão que todas as grandes empresas de vestuário evitam: como conciliar o crescimento exponencial com a sustentabilidade real. Afinal, tornar-se o maior fabricante do mundo não é sinónimo de sucesso ético, como Shein demonstra claramente.












































