Porque é que as it-bags são M.I.A? Spoiler: tem a ver com o preço

Já se passaram algumas temporadas desde que o último it-bag foi coroado e, para ser honesto, é até um pouco difícil lembrar qual saco foi o último fenómeno verdadeiramente viral que esteve em todo o lado. Excluindo o setor do luxo, o saco de nylon da Uniqlo é sem dúvida o único modelo nos últimos anos que alcançou tanto sucesso como entrar no imaginário coletivo. E, no entanto, mesmo nesse caso, estamos a falar de uma mania de pelo menos três anos para a bolsa de ombro em forma de crescente (que continua a ser um acessório essencial e funcional mas deixa de ter aquela aura “must-have”). Quanto às Maisons de luxo, as últimas malas que realmente deixaram uma marca no panorama da moda já têm algumas temporadas atrás delas. Consideremos o Cagole de Balenciaga, o Jackie da Gucci, ou o Jodie de Bottega Veneta. Isso não significa que faltaram novos lançamentos; um excelente exemplo são os novos Beau e Aventure by Miu Miu, que foram amados entre os insiders da moda durante as semanas de moda mas não conseguiram realmente entrar no mainstream. Como podemos saber quando um modelo transcende o círculo interno? Basta procurar a chamada enxurrada de dupes: se não há uma réplica na Zara ou noutras cadeias Inditex, provavelmente não estamos a olhar para a próxima mala suprema. Entre os poucos fortes candidatos ao título de it-bag está o Margaux by The Row, imediatamente replicado por Cos, Zara, Reformation e até Coach. No entanto, o seu preço de 5000€ a 6000€ torna-o inacessível à generalidade dos consumidores, relegando-o a um nicho de público (e deixando os dupes como única alternativa viável). Então porque é que parece que não estão a surgir novos it-bags que possam conquistar todos os segmentos de mercado?

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Como esperado, o principal “culpado” por trás da falta de novas bolsas de sucesso é a subida dos preços. Quanto mais economicamente inacessível um item se torna, menos provável é que se transforme num fenómeno de massa. Sem surpresa, um estudo recente da The Independents prevê que as compras de bolsas de luxo cairão 13.69% nos próximos dois anos. Este número reflete uma grande mudança: enquanto as bolsas de luxo outrora simbolizavam o status, hoje, esse estatuto está cada vez mais ligado a experiências e menos a um simples preço. Isso não significa que os valores materialistas tenham desaparecido subitamente, mas sim que haja um desejo crescente por uma forma de luxo mais “culta”, que pode manifestar-se em investimentos alternativos como arte, viagens e finos restaurantes. Por outro lado, a subida dos preços nunca foi um segredo bem guardado na indústria. O Business of Fashion informou que entre 2019 e 2024, a Galleria Saffiano by Prada aumentou 111%, a Speedy 30 da Louis Vuitton em 100%, a GG Marmont da Gucci 75%, e a 2.55 (versão grande) da Chanel em 91%. A piorar as coisas não estão apenas as subidas de preços mas também a constante expansão das coleções — de duas para cinco ou seis por ano, como salienta o The Atlantic — que tornou o mercado altamente fragmentado. O lançamento implacável de novos modelos desorienta os consumidores e cria uma sensação de saturação. Quando cada estação traz uma nova variação ou restyle, torna-se mais difícil formar uma ligação emocional com qualquer modelo e considerá-lo verdadeiramente “atemporal”.

O ceticismo em relação às bolsas de luxo reflete-se claramente no desempenho financeiro. A Fashion United informa que no terceiro trimestre de 2024, a divisão Fashion & Leather Goods da LVMH registou queda nas vendas (9,2 mil milhões de euros, face aos 10,3 mil milhões no segundo trimestre e 10,5 mil milhões no primeiro). A Kering não é diferente: no seu relatório semestral de 2024, registou uma desaceleração nas categorias de Calçado e Artigos de Couro das suas marcas secundárias (Alexander McQueen, Balenciaga, etc.), devido ao menor poder de compra dos consumidores em certos mercados. Sem surpresa, para encontrar novas fontes de receita, as marcas têm-se focado recentemente em segmentos alternativos, como pequenos artigos de couro: pingentes de malas e mini acessórios que ganharam força nas redes sociais graças a tendências como a “birkinificação” e a “personalização caótica”. Segundo a Vogue Business, quem compra pequenos artigos de luxo (como um chaveiro, batom, ou portador de cartão) ainda quer sentir-se especial e não como clientes de “segundo nível”. Este foco na experiência é precisamente o que mantém uma marca como a Hermès imbatível: cada cliente — seja comprando uma bolsa Kelly ou um produto de beleza — recebe a mesma atenção individual, sai da loja com a embalagem laranja exclusiva e desfruta de um momento exclusivo. Ou seja, quem se envolve com marcas de luxo quer sentir-se parte desse mundo a qualquer nível de preço.

@cryterion_edit It‘s not a Bag. It‘s a Birkin! #sexandthecitynewyorkk #birkinhermes #janebirkinsbag #hermes #hermesbirkin #hermesbag #itsnotabagitsabirkin #KimCattrall #samanthajones original sound - Cat - CRYTERION

O renascimento dos it-bags passados é outra estratégia que as marcas têm vindo a adotar nos últimos anos para tentar sacudir o mercado. Da Re-edição Nylon 2005 da Prada à Saint Laurent's Tote Y, uma infinidade de marcas estão a tentar evocar a nostalgia para convencer os consumidores a comprar. Entre os exemplos mais recentes está a Balenciaga, que recentemente relançou a sua Le City Bag (ou a Motorcycle Bag do início dos anos 2000), apresentando-a através de campanhas que capturam o espírito iconoclasta do Y2K: Paris Hilton, paparazzi, e o City Bag. Como salienta o The Atlantic, nada é coincidência — numa indústria onde a criatividade parece um pouco paralisada, extrair do passado é uma forma de gerar vendas imediatas sem correr demasiados riscos. No entanto, há uma desvantagem: muitos consumidores, cansados de logótipos e designs repetitivos, estão a explorar o mercado vintage, onde podem encontrar modelos verdadeiramente únicos ou peças históricas que lembram a era dos verdadeiros it-bags (como o Baguette ou o Birkin).

Não que a icónica bolsa esteja destinada a desaparecer — é mais correto dizer que, no contexto atual, tornou-se cada vez mais difícil para um único modelo ascender ao estatuto de fenómeno global como no passado. Com os preços em constante aumento, um mercado supersaturado e um consumidor mais desiludido, o it-bag luta para emergir e, quando o faz, corre o risco de desaparecer rapidamente. Entretanto, as marcas estão a tentar aproveitar a onda da nostalgia — talvez reemitindo designs históricos a preços ainda mais altos — ou criando “mini-luxos” para atrair aqueles que já não podem (ou não querem) gastar somas de quatro dígitos. Talvez este não seja o fim do conceito de uma bolsa desejável, mas é certamente o fim de uma era em que um único modelo pode tornar-se o símbolo universal de estatuto. Hoje, a ideia de estatuto é mais multifacetada e manifesta-se de diferentes formas, sobretudo numa paisagem de luxo onde experiências, arte e bens de nicho estão a tornar-se os verdadeiros marcadores da elite. E quem sabe — talvez o próximo it-bag seja lançado durante este mesmo mês de moda.

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