Na Coreia do Sul existe uma aplicação de entregas que não entrega O fenómeno das 'dopamina apps'

Qual é a pior parte de encomendar comida? Escolher o que comer num oceano de sushi, pizzas e hambúrgueres, ou esperar aqueles trinta minutos entre o pagamento e aquela pequena corrida de dopamina que acontece quando o entregador toca a campainha? Um ritual de gratificação instantânea que queima dentro de um quarto de hora — apenas o tempo suficiente para terminar a refeição — antes de dar lugar primeiro ao clássico coma alimentar pós-refeição e depois, muitas vezes, à culpa por ter gasto vinte e poucos euros a mais por preguiça do que por necessidade. É uma das muitas manifestações da cultura da dopamina, esse conjunto de comportamentos construídos em torno da busca constante de pequenas recompensas instantâneas. Na Coreia do Sul, no entanto, esta lógica evoluiu para um ponto quase surreal: existem apps que simulam o consumo sem que nada seja realmente consumido.

Como funcionam as “aplicações de dopamina” coreanas?

O mais famoso chama-se FoodNeverComes, e faz exatamente o que o nome promete: não entrega nada. Como o The Times noticiou, a app replica a experiência de uma plataforma normal de entrega de alimentos em todos os detalhes. Pode navegar nos menus, comparar restaurantes, ler avaliações, adicionar itens ao seu carrinho e até mesmo seguir um piloto num mapa ao vivo. Exceto que o cavaleiro não existe, nem o restaurante, e o pagamento nunca é feito. O utilizador chega até à parte mais emocionante da experiência — a espera — sem ter de lidar com o que vem depois: gastar dinheiro ou realmente comer. É uma espécie de “derradeamento psicológico”.

A ideia pode parecer absurda, mas decorre de um hábito que muitas pessoas já reconhecerão. Quantas vezes enche um carrinho online sem concluir a compra? Ou passar meia hora a navegar em hotéis, casas ou voos sem nenhuma intenção real de reserva? De acordo com a Psychology Today, grande parte do prazer não vem da compra em si, mas de imaginar que está prestes a acontecer. A antecipação produz uma resposta emocional muito forte e, de acordo com pesquisas citadas pela revista científica, pode, em alguns casos, revelar-se ainda mais gratificante do que a recompensa real, entregando toda a excitação do desejo enquanto elimina as consequências práticas.

Fumar um cigarro virtual ou comprar roupa inexistente

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FoodNeverComes é apenas uma das muitas plataformas que surgiram na Coreia do Sul. Ainda segundo o The Times, outro dos mais utilizados é o FagBreak, que recria a clássica pausa para o cigarro: os utilizadores entram numa zona virtual de fumo povoada por outras pessoas, lêem mensagens de estranhos a queixarem-se de trabalho ou colegas, e podem aderir à conversa como se estivessem genuinamente fora do escritório com um cigarro na mão. Existem também sites de comércio eletrónico falsos que, em vez de confirmar uma compra, mostram aos utilizadores quanto dinheiro economizaram ao não clicar no botão “Comprar”.

Segundo Kim Heon-sik, professor da Universidade Jungwon citado pelo Korea Times, estas plataformas são simplesmente a evolução de uma cultura digital que prospera em estímulos sempre novos. A comparação que faz é com o mukbang — vídeos em que milhões de pessoas vêem os criadores consumirem refeições enormes. Se esse conteúdo permite aos espectadores satisfazer o desejo de comer através de um ecrã, as apps de dopamina fazem algo muito semelhante com o consumo: transformam o prazer de comprar numa experiência totalmente virtual, onde a satisfação chega antes mesmo de haver um produto para comprar.

Segundo a Psychology Today, estas plataformas também poderiam ter um uso prático. Se a simulação conseguir realmente substituir um comportamento impulsivo, pode ajudar algumas pessoas a gastar menos, a comer menos junk food ou a fumar menos. Afinal, na economia da atenção, às vezes não é a recompensa que realmente importa — é tudo o que acontece no momento antes de conseguirmos.

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