O design deve influenciar as nossas emoções? Da decoração dopamina ao design emocional, desenhamos para evocar sentimentos

Os espaços em que vivemos começaram a mudar de tom quase imperceptivelmente, como se algo tivesse se movido lentamente por baixo da superfície. Após um longo período dominado por paletas neutras, superfícies mate e minimalismo controlado, a cor está de volta — mas não como mera escolha estética ou variação estilística. Voltou porque era necessário. Ambientes saturados, superfícies brilhantes, contrastes arrojados, materiais que refletem e multiplicam a luz: o que hoje é definido como decoração dopamina estabeleceu-se como uma das direções mais proeminentes no design contemporâneo — mas reduzi-la a uma tendência significa perder o ponto.

O que está a acontecer é mais profundo e diz respeito à forma como o design se relaciona com as pessoas. Num contexto marcado pela instabilidade, ansiedade generalizada e sobrecarga constante, desenhar já não significa simplesmente construir espaços funcionais ou objetos coerentes, mas intervir diretamente na forma como nos sentimos dentro desses espaços. O design já não funciona apenas na forma, mas na perceção, no impacto imediato — naquele sentimento difícil de definir que nos faz dizer “sinto-me bem aqui” antes mesmo de percebermos o porquê. Mas porque é que isso acontece?

Compreender o design “emocional”

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O que estamos a descrever não é um mecanismo novo, mas hoje tornou-se central. Donald Norman já o tinha escrito quando falou de design emocional, explicando como a nossa experiência é guiada por diferentes níveis — do primeiro impacto visceral à reflexão mais consciente. E é precisamente nesse primeiro nível que o design contemporâneo parece concentrar-se com maior intensidade, construindo ambientes que funcionam antes mesmo de serem compreendidos, que atraem antes de serem usados.

Neste sentido, a disseminação do design de dopamina não é por acaso — nem é apenas o resultado das redes sociais, mesmo que seja onde encontra o seu terreno ideal. Cores arrojadas, superfícies brilhantes e formas reconhecíveis funcionam perfeitamente no espaço digital, mas o que vemos online é apenas a manifestação visível de uma mudança mais ampla. É o reflexo de uma necessidade que migrou, que começou a dizer respeito ao corpo, à percepção e à experiência direta.

A casa é talvez o local onde esta mudança é mais visível. Após a pandemia, deixou definitivamente de ser um simples contentor e transformou-se num espaço sobrecarregado de funções e expectativas, onde o trabalho, o descanso, a socialização e o autocuidado se sobrepõem continuamente. Neste cenário, desenhar ambientes que “nos façam sentir bem” deixa de ser um luxo ou uma indulgência estética, mas sim uma forma de adaptação. A decoração dopamina enquadra-se precisamente aqui, oferecendo uma gramática visual que prioriza o prazer perceptivo, a estimulação sensorial e a construção de uma experiência que não passa apenas pela visão mas envolve o corpo como um todo.

Não se trata apenas de uma questão de cor. É uma questão de materiais, luz e ritmo. Veludos, superfícies cromadas, tecidos macios, reflexos, variações contínuas que mantêm a atenção viva e constroem uma relação mais direta com o espaço. Mesmo quando parece espontâneo, tudo está calibrado. O prazer, no design contemporâneo, é desenhado.

Desenhando para as emoções — mas quais emoções?

E é precisamente aqui que a conversa se torna mais complexa. Porque embora seja verdade que o design pode melhorar o nosso estado emocional, é igualmente verdade que pode orientá-lo. Há muito que a psicologia defendeu que tomamos decisões com base naquilo que sentimos muito mais do que estamos dispostos a admitir. Isto significa que desenhar para gerar uma resposta emocional nunca é neutro. Um ambiente que nos deixa à vontade, um objeto que parece certo à primeira vista, um espaço que nos acolhe sem atrito — tudo isso influencia o nosso comportamento, muitas vezes sem que percebamos.

No âmbito digital isso é evidente, entre interfaces concebidas para prender a atenção e sistemas que antecipam desejos e necessidades. Mas hoje essas lógicas estão a entrar cada vez mais no espaço físico também. O design deixa de ser representação e passa a ser um dispositivo — algo que não só existe mas age, que modula a experiência, que constrói condições. Neste ponto a pergunta torna-se inevitável: O design como resposta emocional é uma forma de cuidado ou uma forma de compensação? Estamos a desenhar espaços que genuinamente nos ajudem a viver melhor, ou ambientes que nos permitam suspender, mesmo que apenas por um momento, a nossa relação com um contexto mais complexo?

O retorno da cor, afinal, pode ser lido como uma reação a um longo período em que o minimalismo prometeu ordem e bem-estar através da subtração, apenas para muitas vezes deixar para trás uma sensação de distância, abstração e vazio. Hoje essa promessa parece menos suficiente, e o design volta a ser mais direto, mais incorporado, mais imediato — sem, no entanto, abrir mão do controlo. Porque mesmo por detrás da estética da alegria, atrás da aparente leveza, existe uma estrutura precisa, uma construção deliberada.

Talvez este seja o ponto mais interessante de todos. Num momento em que tudo é instável, o design tenta restaurar uma sensação de estabilidade — mesmo temporária — construindo ambientes em que tudo parece funcionar, em que a experiência é coerente, em que o caos permanece fora, pelo menos durante algum tempo. Não é uma solução, mas é uma forma de mediação. O design não resolve crises, mas absorve-as, traduze-as, torna-as habitáveis.

Assim, em vez de perguntar se o design de dopamina é uma tendência ou a resposta certa, vale a pena fazer uma pausa para considerar o que está a nos dizer. Se precisamos de espaços que nos façam sentir bem é porque fora desses espaços já não há algo tão bom. E talvez, mais do que uma estética, esse seja o sinal mais claro do momento que estamos a viver.

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