O que é o design neo-craft? Quando o design já não quer parecer perfeito

Sejamos honestos: a perfeição começou a parecer um pouco cansativa. Depois de anos a percorrer feeds cheios de renders 8K, minimalismo estéril e superfícies tão lisas que parecem geradas por algoritmos, esse tipo de estética hiper-controlada deixou de nos mover. Não é que pareça mau, é que se tornou a norma. E quando tudo está impecável, tudo começa a parecer igual.

É neste espaço, entre um pixel perfeito e outro, que o Neo-craft está a emergir. Mas não pensem nisso como um regresso nostálgico às feiras de pulgas ou ao tricô da sua avó. O neo-craft, como explicam os sociólogos Alessandro Gandini e Alessandro Gerosa, é algo muito mais contemporâneo: está a usar a tecnologia para fazer exatamente o oposto daquilo para que foi originalmente concebido. Ou seja, abraçar a irregularidade em vez de a corrigir.

O que é o Neo-craft?

Não é uma rejeição do digital, mas sim a sua reinterpretação, um uso consciente, quase cultural do mesmo. É a ideia de usar uma impressora 3D para extrudar argila enquanto permite a intervenção da gravidade, ou programar uma máquina CNC não para limpar a marca, mas para preservar a sua vibração. Um movimento artístico em que a tecnologia muda o seu papel: já não é a ferramenta que elimina o erro, mas sim a que o expõe.

Em 2026, aquela pequena falha que uma vez teríamos descartado torna-se o detalhe que torna um objeto reconhecível. Já não é uma falha, é informação, é identidade. E é aqui que o Neo-craft se conecta a algo maior. Num sistema dominado por lógicas de normalização e replicabilidade, o que procuramos é exatamente o oposto: mais complexidade, mais diferença, mais carácter. Ou seja, mais “ordem” dentro do caos. Isto é o que alguns sociólogos definiriam como movimento negentrópico: uma forma de produzir que, em vez de achatar as diferenças, as gera, amplifica e torna legíveis. Onde o objeto não é o resultado de simplificação, mas de estratificação.

O regresso da inteligência artesanal

Há outro aspecto interessante. O Neo-craft não utiliza a tecnologia de forma neutra, mas interpreta, dobra, adapta-se e torna-a específica. Isto pode ser lido como uma nova forma de tecnodiversidade. Já não existe uma única tecnologia que funcione da mesma forma em todo o lado. Uma impressora 3D numa oficina artesanal italiana não produz o mesmo resultado que uma num ambiente industrial. Não porque a máquina seja diferente, mas porque a perspetiva é. E hoje, essa diferença é um valor. Porque num mundo global, onde tudo tende a tornar-se uniforme, o que permanece verdadeiramente interessante é o que mantém a sua própria identidade.

algo profundamente humano nesta mudança, algo que vai além dos materiais e diz respeito sobretudo à forma como são trabalhados. O artesanato contemporâneo não é simplesmente uma habilidade manual, mas uma forma de inteligência que emerge do fazer, do erro, da repetição e da capacidade de ler materiais e responder ao que acontece durante o processo.

É uma espécie de conhecimento que não se constrói numa secretária, mas ao longo do tempo, através de gestos e através de uma relação direta com o que se está a criar. E talvez seja exatamente isso que está a tornar-se atraente novamente hoje em dia. Num mundo cada vez mais abstrato, feito de interfaces e simulações, o Neo-craft traz o design de volta a um plano físico, tangível e imperfeito. Um avião onde o design não é apenas algo que imaginamos, mas algo que experimentamos. O design volta a ser presença. E essa relação com a matéria não se expressa apenas na forma como introduzimos o erro, mas às vezes parte de algo ainda mais radical: a partir do que já existe.

Stone Stackers, o projeto Neo-Craft por excelência

É o caso da Stone Stackers, projeto fundado por Shilpa Srinivas e Paolo Ciacci, que foca a recuperação de fragmentos de mármore destinados a resíduos e a sua transformação em mobiliário escultórico através de um processo de estratificação. Em colaboração com a Simeg Marmi, o projeto parte de materiais que já estão marcados, já moldados por processos anteriores, já portando traços, e precisamente por isso impossíveis de considerar neutros.

Aqui, o design não impõe uma forma, mas a descobre através do envolvimento direto com o material. Os fragmentos são colocados lado a lado, rotacionados e empilhados num processo físico e instintivo que não parte de um desenho, mas de um diálogo contínuo com o que está à sua frente. “Nunca partimos de um desenho, mas sim do material”, explica Ciacci, “a certa altura a peça se mantém, e é aí que entendemos que podemos parar”. É um processo que pode ser imediato ou exigir tempo, tentativas e erros, mas em todo o caso é construído através de uma relação direta, quase baseada na escuta.

Até a imperfeição, neste contexto, assume um significado diferente. Não é algo a eliminar, mas algo a interpretar. Como uma veia na pedra, pode enriquecer ou pesar o resultado final. O objetivo não é corrigi-lo automaticamente, mas perceber quando deixá-lo emergir e quando intervir para manter um equilíbrio legível. O mesmo se aplica ao final do processo, que nunca coincide com um momento objetivo ou mensurável. Cada objeto torna-se assim uma estratificação de tempos, gestos e processos diferentes, onde não é necessário explicitar todas as “vidas” do material: é algo que é percebido, e não abertamente narrado.

Materialidade discursiva: objetos com uma “lore”

Hoje, o luxo já não é apenas uma questão de materiais ou preço, mas cada vez mais de significado. Um objeto neo-craft não é simplesmente algo que se usa. É indissociável da forma como foi feito, da tensão entre máquina e mão, do tempo que exigiu e dos erros que ficaram visíveis ao longo do processo. Isso é o que poderíamos definir como uma forma de materialidade discursiva, ou seja, a capacidade de um objeto levar consigo uma narrativa, mesmo quando essa narrativa não é explicitamente declarada.

Nesse sentido, a diferença com um objeto produzido em massa é subtil mas decisiva. O primeiro é tranquilizador, funciona em todo o lado, pode ficar em Milão, Tóquio ou Berlim sem mudar nada. Este último, em vez disso, está situado: preserva um traço legível, uma identidade que não tenta adaptar-se a nenhum contexto, mas pertencer a um contexto específico.

Numa era em que tudo pode ser infinitamente replicado, o que escapa à reprodução torna-se inevitavelmente mais interessante. É também por isso que não abandonamos a perfeição porque já não somos capazes de alcançá-la, mas porque já não é suficiente. No meio de um fluxo contínuo de imagens polidas e objetos sem atrito, há uma necessidade crescente de algo que resista, algo que não seja imediatamente solucionável ou totalmente legível à primeira vista. É precisamente aí, nesse pequeno desvio da perfeição, que o design começa a dizer alguma coisa de novo.

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