Não é verdade que a Geração Z já não lê Mudaram a forma de o fazer

Acredita-se que a internet reduziu a nossa capacidade de atenção, o poder intemporal de um livro impresso, o silêncio, e a capacidade de mergulhar numa história, desprendo-nos de tudo ao nosso redor. Hoje é impossível desligar totalmente, mas isso não significa que a Geração Z, ou mesmo a Gen Alpha (nascida entre 2011 e 2024), não sejam ou não possam ser capazes de apreciar a leitura. O meio simplesmente muda. Em muitos casos, os dispositivos eletrónicos podem representar uma nova e prolífica forma de atenção, em vez de um obstáculo — constituído por muitos pequenos compartimentos no nosso cérebro que se abrem e fecham continuamente. Cada mudança histórica e transição de um meio para outro sempre suscitou medo e consternação entre os nostálgicos. Primeiro no século XV, com o advento da imprensa, e depois com a televisão, que foi imediatamente rotulada como uma arma de distração em massa sem qualquer propósito de crescimento pedagógico ou cultural. O mesmo aconteceu no início deste milénio, com a chegada da internet. Os novos meios de comunicação sempre foram vistos com desconfiança por aqueles que eram mestres e conhecedores do meio que estava a desaparecer, mas hoje devemos estar cientes de que é normal ler as três primeiras linhas de um artigo, responder a um e-mail, verificar o WhatsApp, e voltar à página do artigo, guardando para ler na íntegra mais tarde em casa. É um novo tipo de comportamento que não mata o foco ou o amor pela leitura — pelo contrário: reinventa-o.

Temos provas de que as gerações mais novas ainda lêem, mesmo diante dos nossos olhos — tanto no volume de conteúdo consumido (veja o boom de plataformas como a Substack), como no interesse pela literatura que vemos nas redes sociais. Não há necessidade de separar um texto denso de uma legenda — se mudarmos o nosso ponto de vista, poderemos considerar-nos uma das gerações que mais escreve e lê. Olhe em volta: tocar no ecrã é a atividade mais realizada e a atenção que damos a esse ecrã merece nada menos que a dada a um livro. E quando vemos alguém a usar auscultadores, mais do que música, talvez esteja a ouvir um audiolivro ou um podcast. Quer se trate de uma tendência ou de uma estetização da cultura, os números e a investigação sobre o tema dizem-nos o oposto de uma desaceleração. De acordo com uma pesquisa realizada pela Portland State University para a American Library Association, 61% da Geração Z e Millennials leram pelo menos um livro no ano passado - seja físico, digital ou áudio - e até 57% se consideram verdadeiros “leitores”! A parte curiosa é que entre os 43% que não se identificam com esse rótulo, alguns lêem mais livros impressos mensalmente do que a média geral. Isto acontece porque lutamos para nos definirmos como verdadeiros leitores — há uma ativação fragmentada: rolar o Instagram, organizar um grupo de trabalho, enviar um meme a um amigo. Depois continuamos a ler. Mas os números e as manifestações, online ou offline, estão a crescer — de clubes do livro a fenómenos pós-pandemia como o BookTok.

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Estes comportamentos, embora por um lado nos permitam reconhecer que a leitura e a escrita não são práticas em declínio mas sim verdadeiras tendências de transformação, também impactam os espaços físicos onde estas experiências são reunidas e onde somos forçados a estar juntos — mesmo que estejam sentados um ao lado do outro a trocar memes. Romantismo à parte, continua a ser uma troca. As bibliotecas e outros espaços de leitura estão a viver um verdadeiro boom, tornando-se cada vez mais frequentados. E acima de tudo, estão a tornar-se espaços sociais em todos os sentidos — ambientes seguros onde se pode ir simplesmente pelo prazer de estar lá e, talvez, conhecer alguém ou participar de um evento ou atividade. A Miu Miu, uma das marcas de luxo mais queridas entre as gerações mais jovens, está a basear o seu sucesso na estética do visual da biblioteca e no estilo estudantil, seguida de iniciativas como o Clube Literário Miu Miu, realizado para a segunda edição durante o Fuorisalone de abril passado, ou a iniciativa itinerante Summer Reads, que monta bancas temporárias em todo o mundo distribuindo clássicos como O Caderno Proibido de Alba de Céspedes, A. Mulher de Sibilla Aleramo e Persuasão de Jane Austen.

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Como muitas iniciativas, entre consumo e reflexão, os projetos de marcas de moda para a literatura não devem ser vistos como exploração mas como sinal de um genuíno desejo de enriquecimento. Além disso, se a estética pode ajudar mais pessoas a tornarem-se apaixonadas, que assim seja. O melhor exemplo de quanto os jovens leem é, em última análise, o mais simples: pensem em quando, durante uma discussão, alguém está tão convencido do que está a dizer que pega o telefone para verificar se o que eles disseram não é uma notícia falsa. Mesmo essa leitura rápida continua a ler — é também um momento de concentração. Quer seja num telemóvel, num ebook, num livro físico ou numa versão áudio, o importante é não parar no título ou na pré-visualização do Instagram — continue a ler.

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