
Louis Vuitton Men surfa enquanto o mundo queima No desfile SS27 da marca, instalou-se uma onda para o 1%
Já não faz sentido ficar ofendido quando o luxo continua a comportar-se como luxo. Não se pode criticar um mundo criado para excluir, ostentar e viver no excesso. Ainda assim, o desfile da Louis Vuitton Men em Paris demonstrou um novo nível de insensibilidade que, sobretudo num país como a França, não pode passar despercebido. Na Cité Internationale Universitaire de Paris, a maison instalou uma enorme praia artificial, com uma parede de água que evocava a ideia de uma onda contínua. Uma visão impressionante, mas que se tornou perturbadora ao pensar que naquele mesmo dia a França enfrentava o dia mais quente de sempre desde 1947.
A coleção
A SS27 da Louis Vuitton Men inspira-se no mundo do surf, como demonstram as pranchas com monograma e os fatos técnicos que desfilaram ontem (os primeiros assinados pela Maison). Na passerelle, havia também cardigans em cashmere Loro Piana, peças tipo roupão que reinterpretam o que os surfistas usam após o treino, camisas havaianas e algumas referências previsíveis à estética do skateboarding (previsíveis, já que continuam a ser a subcultura favorita de Pharrell).
Como em qualquer coleção da Louis Vuitton Men, foi dado grande destaque à qualidade dos materiais, um luxo que sob a direção criativa do produtor americano se traduz em sneakers que se assemelham demasiado às Vans, pele exótica pintada à mão, fatos de alfaiataria e denim decorado com conchas e pedras preciosas.
Apesar das pranchas de surf e das sneakers, em comparação com temporadas anteriores, a criatividade de Pharrell é menos intensa: há menos grafismos, menos cores vibrantes misturadas entre si e menos referências ao guarda-roupa hip hop com que cresceu. Esta é uma das coleções mais sérias e conservadoras desde a sua entrada no atelier (embora a paleta de cores estivesse ainda mais escura na FW26), confirmando que o foco principal da marca já não é tanto o engagement mediático, mas sim a atenção dos seus clientes mais abastados.
Um local simbólico
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O detalhe mais irónico do desfile da Louis Vuitton Men é que a marca decidiu instalar uma enorme onda realista na Cité Internationale Universitaire de Paris, uma fundação centenária que gere as residências universitárias da capital francesa. Num local onde vivem mais de 6.000 futuros investigadores, médicos e intelectuais, a Louis Vuitton protagonizou um dos gestos mais insensíveis da moda nos últimos anos: um claro caso de desperdício de recursos hídricos no dia mais quente já registado em França.
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É preciso reconhecer, no entanto, que o principal interesse da Louis Vuitton Men não é o ativismo climático, mas sim captar a atenção do 1% da população que não se importa que o planeta se torne cada vez mais inabitável para os restantes 99%: podem simplesmente entrar no seu poderoso jato privado e voar para o Havai com a sua prancha com a marca Louis Vuitton. E, ainda assim, o LVMH Water Conservation Plan supostamente deveria reduzir em 30% o consumo de água do grupo até 2030.



























































