E se a América parasse mesmo de importar fast fashion? Prós e contras das tarifas de Trump sobre a moda made-in-asia-americana

Como se a vida não fosse já complexa para os trabalhadores da indústria da fast fashion, constantemente esmagada por pressões como salários escassos (muitas vezes acompanhados de casos de furto salarial), horas exaustivas, e condições de trabalho inseguras devido também aos pesticidas e outros produtos químicos utilizados nas fábricas e plantações, surgiu recentemente um novo problema. Num novo artigo do Vox, a jornalista Sara Herschander questiona o futuro dos trabalhadores do vestuário na Índia agora que Trump impôs tarifas de 50% às importações do país. Desde que as tarifas americanas entraram em vigor, escreve o Herschander, as fábricas que fazem parte do “cinturão têxtil” da Índia fecharam quase completamente. Os turnos de trabalho diminuíram e, consequentemente, a taxa de suicídio entre os produtores de algodão, um fenómeno já generalizado no país, está a aumentar. Se as marcas americanas deixassem de produzir na Ásia, desencorajadas por preços que agora são demasiado elevados face a antes, que futuro aguarda o setor da fast fashion e os seus trabalhadores na Índia, bem como no Vietname e no Bangladesh?

Entre as marcas norte-americanas que sofreram o maior impacto nas suas importações devido às tarifas de Trump estão a Gap, a Lululemon, a Nike (que trabalha principalmente com fábricas vietnamitas), a H&M, a Inditex (Zara, Mango), e a Primark, mas também a Levi's, que encomenda jeans no Lesoto, na África Austral. Embora as condições de trabalho dos profissionais da indústria da moda rápida possam continuar a melhorar, grande parte do progresso socioeconómico alcançado no Leste Asiático desde o início dos anos 2000 - quando as marcas de vestuário descobriram que era mais barato produzir na Índia e não na China, por exemplo - deve-se precisamente ao sector da fast fashion. Pequenos mas consistentes marcos que, se a colaboração entre fábricas e grandes marcas terminasse, poderiam perder-se para sempre. Na Índia e no Vietname, a taxa de educação da população aumentou e a percentagem de pessoas que vivem em extrema pobreza diminuiu, também graças aos empregos proporcionados pelas cadeias de abastecimento. Sem contar que nesta indústria, muitas vezes são as mulheres que são contratadas como costureiras ou tecelãs, uma oportunidade que não é pouca coisa para um género que ainda luta para se afirmar e alcançar a independência nos países menos desenvolvidos.

Os efeitos das tarifas americanas no fast fashion já são visíveis. Nos últimos quatro meses, as exportações da Índia caíram 40%. Depois da China, a Índia representa atualmente o país mais importante do mundo para a produção têxtil, um estatuto que poderá desaparecer no ar, a par de todos os progressos alcançados pelos trabalhadores do setor, caso as tarifas se mantenham em vigor. Milhares de agricultores e trabalhadores agrícolas saíram agora às ruas para protestar contra as tarifas e contra a decisão do governo indiano de não intervir. O futuro da fast fashion e das mãos que a criam está agora nas mãos de Trump e Modi. O que, podemos acrescentar, não é um bom augúrio.

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