Precisávamos da iniciação de Post Malone no sistema de moda? O antigo rapper, agora cantor country, vai estrear a sua nova marca na PFW

Para aqueles que eram adolescentes na segunda metade dos anos 2010, é impossível esquecer como a armadilha de Post Malone foi a banda sonora dos primeiros drives depois de conseguirem uma licença, de histórias do Instagram com filtros desajeitados e infinitos bumerangues, e como os Parabéns quase se tornaram um hino de formatura. No entanto, nada resta desses sons hoje em dia. O Austin Post, nos últimos anos, decidiu virar a página: mudou a sua vida, som e estética, deixando para trás o capítulo do rap que o tinha levado ao topo das paradas globais, aos Grammys e à colecção de três discos certificados com diamantes. Hoje, Post Malone é um artista country, andando com botas de cowboy e chapéu, e posando para Skims enquanto monta a cavalo, pesca ou corta madeira numa estética deliberadamente “americana”. Deixou para trás as tranças muitas vezes criticadas como apropriação cultural, reduziu o consumo de álcool em prol de um estilo de vida mais saudável, começou a colaborar com Taylor Swift e Beyoncé, e prepara-se para a estreia da sua marca na Paris Fashion Week. Uma metamorfose tão radical levanta inevitavelmente a questão: como é que alguém pode reinventar a sua carreira e o branding de forma tão eficaz?

@skims @Post Malone original sound - SKIMS

A chave está na autenticidade. Como qualquer reposicionamento, uma marca só funciona se for percebida como genuína. No caso de Post Malone, a mudança para o país não pareceu forçada ou oportunista, mas sim como uma evolução natural. Seguidores de longa data já sabiam que a sua imaginação pessoal estava sempre ligada a essa estética: do seu amor pela cerveja (especialmente Bud Light) ao seu comportamento humilde e descontraído, até à sua voz, naturalmente tingida de alma e sotaque, aparentemente feita para o país. Mesmo durante a sua fase de rap, houve elementos de rock e folk, mostrando que as sementes dessa mudança já estavam presentes. Numa análise publicada pela Robot Food, o gestor de contas Jed Welsh explicou como o caso Post Malone serve de alerta para as marcas, notando como, após a renovada atenção na música country a seguir ao Cowboy Carter, muitos artistas correram a aderir à tendência, muitas vezes de forma desajeitada e sem credibilidade. No caso de Post Malone, porém, a transição foi lida como gradual e coerente. A sua história mostra que a mudança nunca deve ser um sprint repentino, mas sim uma progressão constante construída sobre verdades já incorporadas na própria identidade. De um músico, uma mudança de género ainda pode parecer natural, mas a moda é um terreno completamente diferente.

A notícia, ainda envolta em mistério, da próxima estreia da marca Post Malone suscita inevitavelmente algumas dúvidas, especialmente porque os seus laços com a indústria até agora se limitaram a colaborações com marcas como Crocs ou Harley-Davidson, parcerias mais ligadas ao seu estilo pessoal e imagem pública do que a qualquer ambição real de construir uma narrativa significativa na moda. E é aqui que surge a dúvida. Precisamos mesmo de outro enfant prodige musical que decida desviar a sua carreira para a moda? A comparação com outros artistas que seguiram caminhos semelhantes é inevitável. Kanye West, Pharrell Williams ou A$AP Rocky construíram a sua credibilidade na moda porque esse mundo fazia parte da sua identidade desde o início. Em todos estes casos, a ligação com a moda pareceu orgânica, nunca como uma tentativa de colonizar um campo externo. No caso de Post Malone, no entanto, essa autenticidade parece menos evidente. A mesma coerência que lhe permitiu reinventar-se como artista country não parece emergir aqui com a mesma força. Pelo contrário, muitos o acusaram repetidamente de ser um “abutre da cultura”, termo utilizado para descrever alguém que toma emprestado de imaginários culturais, muitas vezes pertencentes a comunidades marginalizadas, exclusivamente para exploração comercial, sem retribuir ou sem ter uma ligação real com eles. Já na sua fase de rap, enfrentou críticas por apropriações superficiais e empréstimos, e esta estreia na moda corre o risco de trazer de volta a mesma perceção. Estas, no entanto, continuam a ser especulações. Muito provavelmente, o lançamento da marca Post Malone será simplesmente uma jogada de relações públicas ligada à sua turnê europeia, que, coincidentemente, vai parar em Paris logo durante a semana de moda. Ou pode realmente tornar-se a estreia do ano, talvez até roubando os holofotes de Blazes na Chanel ou Demna na Gucci. Enquanto espera por Outubro, a única coisa que resta é desfrutar do Austin Post como o novo queridinho dos Skims.

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