
Porque é que a Matières Fécales vai abrir a Paris Fashion Week? A marca de culto junta-se às fileiras das marcas mais importantes do calendário de moda de Paris
Frequentar a Paris Fashion Week não é suficiente: é preciso perceber onde está no calendário. A posição que uma marca ocupa dentro do calendário é muitas vezes um indicador do poder que a marca detém. Tanto que várias marcas, tanto em Milão como em Paris, gozam de certos privilégios não oficiais: quem abre e quem fecha determinados dias, quem mostra em determinados horários e em determinados dias. A Chanel, por exemplo, mostra na segunda-feira à noite, enquanto a Miu Miu costuma fechar o horário na terça-feira. Mas não será esse o caso na próxima Paris Fashion Week.
Tal como em Milão, Paris também viu algumas mudanças no calendário, que este ano vai abrir com Julie Kegels, fechar com a Louis Vuitton, e viu o desfile de Miu Miu mexer mais cedo. Mas o reposicionamento mais marcante do calendário é o de Matières Fécales, que esta temporada terá uma vaga muito proeminente, como veremos. Uma mudança que serve de excelente ponto de partida para analisar todos os novos desenvolvimentos no próximo calendário de Paris.
1. Matières Fécales vai encerrar o primeiro dia
O último espetáculo noturno em Paris é, em regra, um slot de prestígio, uma vez que todos os dias são sempre encerrados em grande estilo. Isto é duplamente verdade quando o desfile de encerramento é o do primeiro dia — certamente menos exigente e institucional do que encerrar toda a semana de moda, mas ainda assim uma “montra” muito importante. É revelador que este ano será a Matières Fécales a ocupar esta posição. Em poucos anos, a marca cresceu organicamente, conquistando tapetes vermelhos e rapidamente reivindicando um espaço outrora ocupado por McQueen e, acima de tudo, por Dilara Findikoglu — o da moda sombriamente romântica e carregada de simbolismo.
2. Os novos diretores criativos de Courréges e Carven
Entre as estreias do novo diretor criativo na próxima temporada estarão as de Drew Henry em Courréges e Kai Nesselrath na Carven. Das duas marcas, a mais conhecida é obviamente Courréges, que sob Nicholas Di Felice tinha passado por uma gloriosa reformulação que, ao mesmo tempo que modernizou com sucesso a identidade da marca, pode ter acabado por ter revelado um lampejo na panela. Depois de Di Felice e do seu minimalismo de ficção científica, Drew Henry — um veterano das Testemunhas de Jeová Anderson — assumirá o comando: deveríamos esperar um Courréges mais lúdico? A mais refinada Carven, a marca da qual Louise Trotter lançou a fase estelar da sua carreira, estará em vez disso nas mãos de Kai Nesselrath, que vem de Saint Laurent de Anthony Vaccarello. Não sabemos o que esperar mas estaríamos dispostos a apostar numa lente mais clássica a ser aplicada à marca.
3. Os regressos: Valentino, Maison Margiela e outros
Para além do regresso da sacai à passarela das mulheres — dificilmente um acontecimento importante, dado que a marca é uma presença constante em Paris — as reviravoltas verdadeiramente significativas são as da Valentino, de onde surgem rumores de turbulência, e da Maison Margiela, que, depois do desfile de Xangai, só agora regressa a Paris. Entre as marcas que regressam está também a Casablanca, que mal aparece há um ano inteiro. Destas, a Maison Margiela é certamente a única que não suscita nenhuma preocupação particular: há muito acostumada a uma agenda de espetáculos errática, a marca goza atualmente de considerável estabilidade e de uma sólida reputação. As coisas são bastante diferentes para as outras, que continuam a ser vigiadas de perto. Basta dizer que ambas as marcas precisam de programas que não sejam nem divisivos nem abertos a interpretações erradas: cada vez mais, estação após estação, ou regressa vitorioso ou não volta de todo.
4. As novas chegadas no calendário
Maxhosa África, Alexandra Golovanoff e Fidan Novruzova são os três recém-chegados a assistir no calendário. A Maxhosa África, fundada em 2010 pela designer sul-africana Laduma Ngxokolo, é especializada em malhas de luxo enraizadas na estética tradicional Xhosa, expressas através de tecidos coloridos de jacquard, motivos geométricos e bordados com miçangas. Com este espetáculo, será a única marca africana no calendário. Alexandra Golovanoff, lançada em 2016 por uma antiga jornalista de moda, começou como uma linha de caxemira antes de evoluir para uma coleção completa; enquanto Fidan Novruzova, designer moldava formada na Central Saint Martins e nomeada para o Prémio LVMH, é atraente pela sua sensibilidade retrofuturista — todas silhuetas esculturais, formas geométricas e drapeado. Ela já tem um produto herói: as botas Havva de bicos quadrados. Será fascinante ver o que emergir.
5. Muitas e variadas ausências
Enquanto a Alaïa estará fora do horário porque, sem designer, apresentará num formato diferente, os ausentes nesta temporada certamente não são poucos. Por um lado, estão as marcas a regressar a casa: McQueen a voltar a Londres e Thom Browne a Nova Iorque. Off-White mostrou em Paris na última temporada depois de passar uma temporada em Nova Iorque, e para a atual temporada parece ainda estar faltando em ação. O mesmo vale para Giambattista Valli, atualmente em período de remodelação, e para Nina Ricci, que na sequência da saída de Harris Reed recuou para um relativo silêncio. Mais intrigante é a ausência de Rabanne, embora isso seja simplesmente preparação para coisas maiores e melhores que virão: como já sabemos, Oliver Rousteing está agora no comando da marca e vai estrear-se para a próxima temporada de inverno.








































