
“Queremos criar um ponto de encontro”: Maria Grazia Chiuri no Teatro della Cometa Juntamente com a filha Rachele Regini, a designer fala da reabertura do histórico teatro romano
A reabertura do Teatro della Cometa em Roma é mais do que mais um exemplo da ligação entre moda e arte performativa (agora um fascínio crescente dentro do sistema de moda). Para Maria Grazia Chiuri, marca um novo capítulo na sua carreira de décadas — um que parece mais pessoal e fundamentado. Este percurso é ainda enriquecido pelo envolvimento da sua filha, Rachele Regini, que liderará o comité científico e coordenará curadores nos vários campos artísticos da nova programação do teatro. Em todos os sentidos, é um regresso a casa, um regresso às suas raízes, mas também a um lugar de sincero interesse pessoal. O designer recorda: “A minha primeira ligação com o Teatro Cometa foi como espectador — o meu marido Paolo e eu éramos subscritores até ao seu encerramento em 2020. Depois de adquiri-lo em 2018, comecei a recolher materiais sobre a sua história, e um encontro mais profundo veio através dos esboços de 1947 de Tomaso Buzzi, que — como acontece muitas vezes — fiquei surpreso ao redescobrir entre esses documentos”. A decisão de Chiuri de investir nas artes teatrais não foi coincidência. A sua relação com a performance esteve sempre presente, particularmente durante os seus últimos dez anos em Paris como chefe de uma das principais maisons da cidade. Lá, cultivou inúmeras colaborações artísticas, muitas enraizadas no mundo do teatro. Da dança contemporânea de Sharon Eyal à estética visionária de Bob Wilson, estas parcerias aguçaram a sua sensibilidade criativa e aprofundaram o seu interesse na relação imersiva entre corpo, roupa e espaço. Como explica: “Fiquei interessada em abrir o espaço inerentemente performativo da passarela a outros rituais efémeros, como performances teatrais. Queria pôr as peças em diálogo com aquelas realidades”.
A iniciativa de Maria Grazia Chiuri e da equipa do Teatro Cometa parece vir num momento particularmente favorável para a cidade de Roma, que, como reiterou recentemente o prefeito Roberto Gualtieri, deve voltar a ser um centro cultural vibrante e acessível, especialmente para as gerações mais novas. “Parte da programação”, diz Rachele Regini que, como mencionado, dirige a comissão científica do Teatro, “será dedicada a realizadores italianos de diferentes gerações que terão a oportunidade de trazer as suas performances a Roma”. Esta urgência reflecte-se também na visão por trás da reabertura do teatro histórico, como salienta Rachele Regini, para quem o novo Cometa é “um ponto de referência em Roma para um programa de prosa, música e dança. O desejo é ativar um diálogo constante com a cidade e as suas comunidades criativas”. O objetivo não é replicar modelos existentes, mas oferecer um “programa não tradicional que alterna eventos de origem internacional, mas também italiana — um novo lugar que possa enriquecer a paisagem cultural da cidade através do intercâmbio e interação entre culturas e códigos expressivos”. Regini explica que a intenção é ativar um diálogo constante com a cidade e as suas comunidades criativas, posicionando-se dentro da paisagem cultural romana como um espaço dinâmico, inclusivo e aberto ao intercâmbio.
Espaços como o Teatro Cometa continuam a ser raros em Itália, sobretudo quando comparado com cidades como Paris, onde, como a própria Chiuri nota, a energia cultural pode sentir-se a muitos níveis. O seu tempo em França teve um impacto profundo nas suas lentes criativas: “Aprendi muito em Paris e com os franceses. Sabem apoiar os seus artistas e performances, e o seu público está incrivelmente envolvido”. É um modelo que vale a pena procurar, especialmente se a Itália pretende recentrar a cultura e fomentar ligações genuínas entre diferentes mundos criativos, como a moda e a performance, de maneiras que parecem naturais, em vez de forçadas ou, pior, comercialmente oportunistas. Para Chiuri, estas ligações nunca foram estratégicas; estiveram sempre profundamente enraizadas na sua forma de trabalhar: “A moda sempre foi uma forma de falar dos corpos e da nossa relação com o corpo. Usei a moda como plataforma para colaborar com artistas e artistas que — junto comigo — questionam a natureza dessa relação, incluindo a forma como habitamos as nossas roupas”. Esse mesmo espírito informa o projeto Teatro della Cometa — concebido como um lugar onde artistas, intérpretes e músicos podem colaborar, criar novas performances e fazer perguntas difíceis sem sentir a necessidade de dar respostas imediatas. É importante salientar que não se trata de reinventar o Cometa mas sim de honrar o seu legado, como explica Chiuri: “Focámo-nos primeiro na restauração do espaço com o arquiteto Fabio Tudisco de 2018 até hoje. O nosso objetivo era trazê-lo de volta ao seu design original, preservando o seu charme enquanto o equipava com as melhores soluções técnicas para responder às necessidades contemporâneas”.
Quanto ao que vem a seguir para Maria Grazia Chiuri no mundo da moda, nada foi anunciado ainda. Mas a sua crescente ligação com o teatro sugere um passo gradual para longe do ambiente acelerado e de alta pressão da moda parisiense. Não é uma despedida, mas talvez uma procura de equilíbrio, uma forma de redescobrir um ritmo mais humano e uma ligação mais profunda com artistas, audiências e trabalhos criativos feitos para serem verdadeiramente vividos, não apenas consumidos. Não é surpresa que Chiuri descreva esta mudança como um momento de renovação: “Estou feliz em explorar um tipo diferente de espaço, mais íntimo e mais familiar, especialmente numa época em que a conexão humana parece cada vez mais rara”. Numa indústria agora moldada por ecrãs, velocidade e envolvimento remoto, voltando ao teatro, “o espaço do aqui e agora, w” oferece-lhe uma espécie de renascimento. “Estar fisicamente novamente presente — partilhar espaço com artistas e espectadores — é um belo novo começo para mim”. Uma que permanece enraizada na criatividade e no diálogo, mas que agora se desenrola a um ritmo mais lento, mais honesto, livre das pressões do sistema de moda.












































