
General Cidade Roma, a entrevista ao presidente da Câmara Roberto Gualtieri “Criar espaços de cultura e criatividade é crucial, tanto mais nos subúrbios”

Este ano, o burburinho nas ruas de Roma é mais alto que o habitual. Rebanhos de turistas, peregrinos, freiras e visitantes curiosos afluem a São Pedro para acolher o novo papa, para atravessar a Porta Santa da basílica para a expiação dos pecados, para completar uma longa viagem, ou simplesmente para participar nas celebrações do Jubileu. Entretanto, no centro da cidade, grupos de jovens de todas as idades e de vários locais reúnem-se, beijam, andam de mãos dadas, conversam e trocam ideias. Apesar da excitação, quando perguntamos a um romano se eles gostam da sua cidade, eles respondem sempre com grande consternação, enumerando uma série de problemas de longa data: não há espaço, não há tempo, não há organização. É um ano especial para a Cidade Eterna, um momento chave na história da capital que o prefeito Roberto Gualtieri está a tentar aproveitar ao máximo para transformar Roma de um destino turístico de atropelamento numa oportunidade cultural e de trabalho para todos os jovens com boas ideias. Ele fala sobre isso nas redes sociais desde 2021, ano em que assumiu o cargo no Capitólio, e discutiu isso com a revista nss há alguns dias para um novo capítulo da Gen. City, um projeto que conta a história das grandes cidades italianas através dos seus prefeitos em diálogo direto com a Geração Z. Do slogan “Roma está a transformar” às ações concretas tomadas para revitalizar a cidade e os seus arredores — uma fértil terreno para movimentos culturais juvenis — Gualtieri acredita na palavra que vai definir Roma em 2025 é inovação.
A remodelação de Roma começou em 2021, diz-nos Gualtieri, um plano ambicioso que, como indica o slogan político escolhido pela administração, “visa não só tornar a cidade mais eficiente, recuperar um défice de manutenção, mas transformá-lo verdadeiramente”. Em resposta à demissão dos romanos, o autarca lançou um projeto de renovação da cidade para provar que Roma “pode ter espaços públicos a par das melhores capitais europeias”. Das intervenções de planeamento urbano ao desenvolvimento digital, para este jubileu, foram investidos 14 mil milhões de euros, comprometidos tanto com a inovação estratégica como com a proteção do património cultural da cidade. Como bem sabemos, não há estaleiro de obras em Roma sem uma descoberta arqueológica. “A nova Piazza Pia — que liga o Castelo de Santo Ângelo a São Pedro — foi um grande desafio, tivemos muito pouco tempo para a concluir. Mas esta Missão Impossível deu-nos uma grande motivação.” Destacando as surpresas “dotadas” pela obra na Piazza Pia, o autarca fala ainda da abertura da lavandaria romana nos jardins do Castel Sant'Angelo e da estação de metro Porta Metrovia, que acolhe um quartel da Roma Antiga. As descobertas em Roma “atrasam a linha do tempo, mas tornam as novas obras únicas, interagem com o passado, e gostamos muito desta ideia de uma Roma em camadas que caracteriza novos desenvolvimentos urbanos”.
Uma questão com a qual o prefeito Gualtieri claramente se preocupa são os jovens — primeiro publicando ativamente nas redes sociais e, em segundo lugar, dedicando espaços e oportunidades de crescimento às novas faces de Roma — porque, em última análise, como discutimos no final da entrevista, a política não é apenas sobre comunicação. A administração de Gualtieri quer transformar Roma de um destino turístico de atropelamento numa “cidade à qual voltar porque há coisas para fazer e há uma vida cultural rica, e para nós, os jovens são o termómetro”. A programação cultural da cidade está fortemente orientada para os jovens, diz o autarca, que reconhece a importância de “criar espaços de cultura e criatividade como fundamental” para o desenvolvimento de Roma. “Estamos a aumentar os apelos a iniciativas culturais em toda a cidade, especialmente nos subúrbios, porque há aí uma vitalidade extraordinária em termos de cultura juvenil”. A administração de Roma está também a tentar apoiar os jovens com programas de formação e emprego, acrescenta Gualtieri, como a Casa das Tecnologias Emergentes, um laboratório dentro da estação de Tiburtina para “apoiar start-ups e empreendimentos empreendedores inovadores”. Para além do cinema e da moda, dois pilares da cultura romana, Gualtieri enfatiza que Roma está a trabalhar para os jovens em todos os campos, mesmo os menos conhecidos. “Tentamos especialmente falar com aqueles que querem vir a Roma para trazer criatividade: criamos espaços em algumas estações de metro onde se pode reservar para tocar música ao vivo.” Sem esquecer a questão dos elevados custos das rendas, que há muito afecta os jovens e os estudantes em Roma.
“É uma desgraça”, comenta Gualtieri sobre o problema da habitação para os jovens que querem estudar ou trabalhar em Roma mas enfrentam rendas altíssimas ou, pior, falta de moradia ou condições de vida insustentáveis. “Juntamente com o presidente da Câmara Municipal de Barcelona, criámos um grupo, o Mayor for Housing, e apresentamos um plano em Bruxelas para conseguir apoio europeu para uma nova era de habitação pública e social”. O principal objetivo do autarca de Roma, tal como para os autarcas de outras cidades europeias do grupo, é criar “residências estudantis acessíveis capazes de oferecer preços dignos”, para apoiar o talento antes de rendimentos.
A elevada questão das rendas anda de mãos dadas com o fenómeno do sobreturismo, uma faca de dois gumes para todos os principais destinos turísticos que este ano, com a chegada do jubileu, corre o risco de prejudicar gravemente Roma e os seus residentes. Para resolver o problema da aglomeração excessiva nos chamados hotspots turísticos da cidade, o município de Roma procurou ajuda da inteligência artificial, lançando uma aplicação apoiada pelo ChatGPT para guiar os visitantes em direção aos tesouros escondidos da Cidade Eterna. “Roma não deve perder os seus residentes, ou corre o risco de se tornar uma espécie de Disneylândia”, comenta Gualtieri. Ironicamente chamada Julia, é “a primeira assistente virtual de IA do mundo criada por uma cidade pública” e está disponível em oitenta idiomas diferentes. Enquanto isso, observa o autarca, foi lançado um plano de dez anos para construir 30 000 unidades de habitação social que incluirão residências tanto para estudantes como para residentes seniores de Roma. Tendo mesmo tentado em 2022 nomear Roma para a Exposição Mundial 2030 — uma candidatura finalmente vencida por Riad — os planos do prefeito para a capital da Itália parecem maiores do que a própria cidade. Afinal, Roma fala ao mundo inteiro, não apenas à Itália, e este ano é a ocasião perfeita para o provar.










































