
A moda ainda pode ir além do greenwashing? Entrevista a Eileen Akbaraly, fundadora do Made For A Woman

“Hoje, luxo significa saber que a sua compra ajudou a melhorar a vida de alguém”, diz Eileen Akbaraly, CEO e fundadora da Made For A Woman, uma marca madagasca fundada em 2019 que tem colaborado com marcas como Fendi e Chloé. É uma noção de valor medida não só pelo preço de uma peça, mas pelas condições sociais de quem a fez. Numa altura em que muitas marcas falam em sustentabilidade, ética e sensibilização, o fosso entre as mensagens e a realidade continua a ser grande. Nos últimos meses, vários casos revelaram como, por trás da narrativa “verde”, o sistema de moda ainda opera com cadeias de abastecimento opacas e mal rastreáveis. Isso ficou evidente no final de abril de 2025, quando o Tribunal de Milão colocou a Valentino Bags Lab Srl, controlada pela Valentino Spa, sob administração judicial devido a graves irregularidades na cadeia de abastecimento. Este caso não é isolado: em 2024, a Dior, a Armani, e a Alviero Martini também enfrentaram acusações de exploração laboral na cadeia de abastecimento italiana, agora resolvidas. Para além da maison francesa, outras marcas da LVMH foram investigadas no ano passado por abusos na produção têxtil, sobretudo devido ao enorme fosso entre os custos das matérias-primas e os preços a retalho. Como afirmou o empresário, “não só para os diretamente afetados, mas também porque estes episódios provam quanto trabalho resta para tornar a moda verdadeiramente ética e justa”.
@twinbrett Valentino are the latest brand to be placed under administration after a court ruling has found new reports of exploitation in their supply chain. Made in Italy has taken a bashing in recent months as more allegations of labour issues come to light. What was once the trademark of trust, quality and craftmanship is now losing meaning when attached to large luxury brands. #valentino #exploitation #supplychain #madeinitaly #sustainability #twinbrett #armani #dior #chinesefactory #valentinobags #fashionfactory #luxuryfashion original sound - Brett Staniland
A questão é fundamentalmente ideológica: segundo um relatório do Business of Fashion, apenas 18% dos executivos de moda consideram a sustentabilidade uma prioridade estratégica. Este valor reflete-se nas recentes decisões operacionais de marcas como a Burberry, que anunciou planos para cortar 1,700 postos de trabalho até 2027 para poupar 100 milhões de libras e focar-se em produtos icónicos. Ainda assim, nem todas as marcas devem ser pintadas com o mesmo pincel — algumas agem de forma consistente sem ostentar certificações. Um desses casos é Rick Owens, que há muito produz as suas coleções na província de Modena em colaboração com artesãos locais. Apesar de não definir a sua marca como “ética”, Owens lançou iniciativas concretas como um ténis de base biológica com a Veja e a linha Eco-Aware, provando que a transparência pode resultar da ação e não do marketing.
rick owens: "buy fewer clothes"
— gibby from icarly (@monolilium) March 22, 2025
interview from 2009 pic.twitter.com/kW0OW0eP4P
De acordo com Akbaraly, todas as empresas têm uma responsabilidade implícita para com todos os envolvidos no processo de produção, não apenas com o cliente final. “Só colocando as pessoas no centro podemos reconstruir a confiança do consumidor e mudar verdadeiramente as regras do jogo”. A sua marca de slow fashion, Made For A Woman, fundada em Antananarivo, Madagáscar, prova que uma alternativa é possível. O coração da sua produção reside nas bolsas e acessórios de ráfia. O atelier envolve mais de 350 artesãs que fazem cada peça à mão, preservando o conhecimento ancestral através de gestos, histórias e paixão, “transformando o trabalho invisível numa parte ativa do processo criativo”. Cada artesão recebe apoio abrangente através do modelo SHAPE (empreendedorismo social, human-first, consciencialização, crescimento pessoal e empoderamento), que inclui formação, cuidados de saúde, apoio psicológico e cuidados infantis num ambiente seguro e baseado na comunidade. “Não foi fácil construir um modelo tão completo, especialmente num contexto como Madagáscar onde muitas vezes faltam infraestruturas e apoio institucional”, explica Akbaraly. Mas, acrescenta, a verdadeira sustentabilidade começa nas pessoas: “Sabemos que cada produto vendido não é apenas um objeto: é uma vida transformada. E isso dá sentido a todo o esforço”.
Segundo o empresário, ser transparente e responsável significa “viver e trabalhar com amor pelos outros. É uma escolha interior, nascida de um desejo genuíno de reconhecer e respeitar a dignidade, o valor e a história de cada pessoa envolvida”. Com efeito, o atelier não utiliza subcontratação ou outsourcing opaco, e cada produto é rastreável através de um código QR que o liga à história do artesão que o criou — a sua versão do passaporte digital. “Sabemos que cada produto vendido não é apenas um objeto: é uma vida transformada”, diz Akbaraly. Para garantir a transparência em toda a linha de produção, a marca está a trabalhar num projeto de certificação para a ráfia de Madagasca em colaboração com o Ministério do Ambiente e parceiros locais de conservação. “A verdadeira transparência não é uma ferramenta de marketing, mas uma escolha ética que envolve todo o processo criativo e produtivo”. Na sua opinião, é apenas “partindo das raízes com honestidade, responsabilidade e respeito por todos os elementos da cadeia de abastecimento” que a moda pode realmente se regenerar.
O compromisso da Akbaraly em apoiar a cadeia de abastecimento têxtil tem sido reconhecido por marcas como a Fendi e a Chloé, que optaram por colaborar com a Made For A Woman sem comprometer a sua identidade, nomeadamente na produção de bolsas e acessórios de ráfia. “Foi ao mesmo tempo um desafio e uma enorme oportunidade de crescimento: o mundo do luxo tem padrões extremamente elevados, prazos apertados, e expectativas específicas”, diz Akbaraly. No entanto, acredita que a lavagem verde continua a ser desenfreada. Num setor onde o marketing muitas vezes supera as práticas reais, a transparência continua a ser uma das ferramentas mais claras para avaliar se uma marca é verdadeiramente sustentável. Contar histórias já não é suficiente — o que é necessário são ações rastreáveis, responsabilidade partilhada e cuidado genuíno com aqueles que fazem os produtos. E talvez seja exatamente aí que o conceito de luxo possa realmente evoluir: da exclusividade ao impacto. Não apenas para o comprador, mas também para o fabricante. Sem surpresa, esta é a própria abordagem que rendeu a Eileen Akbaraly um lugar na lista da Forbes Africa 30 Under 30, entre os jovens líderes mais influentes do continente.




















































