
Kering está prestes a abandonar o Top 50 das ações europeias O seu lugar, no Euro Stoxx 50, será ocupado por um fabricante de armas
Os tempos estão a mudar. Num mundo cada vez mais dividido pela guerra e pelo conflito, a ideia de que uma empresa produtora de munições e armamento vale mais do que um conglomerado de luxo pode ser surpreendente, mas já não pode ser chocante. Especialmente considerando como o setor do luxo está a lutar em todo o mundo. Mas o que é que aconteceu exactamente? Hoje chegou a notícia de que a Rheinmetall AG, a gigante alemã da defesa, vai aderir ao Euro Stoxx 50 a 20 de junho, substituindo a Kering SA, o segundo maior conglomerado de moda de luxo do mundo. Para ser claro, o Euro Stoxx 50 é essencialmente um ranking das 50 empresas mais importantes e maiores da zona euro — ou seja, os países europeus que utilizam o euro — uma espécie de barómetro de mercado ou almanaque da nobreza onde as 50 principais ações europeias são destacadas para os investidores perceberem como está a economia da zona euro. A mudança, reportada pelo estrategista do JPMorgan Chase & Co. Pankaj Gupta e confirmada pelo fornecedor de índices Stoxx Ltd., é sem dúvida um sinal dos tempos, como dissemos.
@bernardgarby The Struggle of Luxury Brands: Kering is in Crisis! Yemi Lawal, Luxury Market Specialist, comments. #fashionnews #luxurybusiness original sound - BERNARD
Esta substituição foi determinada não só pela crise que atingiu o setor do luxo, mas também pelo surpreendente ímpeto da Rheinmetall na bolsa. Desde o início de 2024, o valor das ações do grupo alemão triplicou, graças em grande parte ao aumento dos gastos militares na Europa. Só em maio, as ações da Rheinmetall subiram 26%, elevando a sua capitalização de mercado para quase 87 mil milhões de euros — um resultado que projetou o fabricante de armas na metade superior das 50 principais ações europeias. Desde o ataque da Rússia à Ucrânia em 2022, as ações cresceram 1,800% — o número fala por si. Mas não há necessidade de interpretar esta notícia como excessivamente apocalíptica: a empresa alemã será de facto o único nome do setor de defesa num índice que já inclui gigantes da indústria aeroespacial, automóvel, produção química, energia e tecnologia, juntamente com nomes como L'Oréal, Hermès e LVMH, que recentemente caíram das cinco ações mais importantes da Europa.
A subida da Rheinmetall contrasta fortemente com o declínio da Kering. As ações do grupo francês caíram 28% desde o início de 2024 e perderam 47% face a há um ano. O gigante do luxo foi particularmente atingido por uma queda nos gastos dos consumidores chineses — historicamente um componente crucial do crescimento do setor — e por incertezas comerciais ligadas às tarifas da administração Trump. Em abril, a ação atingiu os níveis mais baixos desde 2016, marcando uma fase crítica para uma empresa que há anos representa a excelência europeia no luxo. A alteração da composição do índice, portanto, não é apenas uma questão técnica. É reflexo de uma Europa que está a reavaliar as suas prioridades económicas, olhando agora para a segurança e a defesa com novos olhos, enquanto setores que antes lideravam o crescimento, como o luxo, estão a ficar em segundo plano depois de duas décadas de expansão explosiva. Numa altura em que o equilíbrio geopolítico global está cada vez mais instável, os mercados parecem premiar a capacidade de adaptação a um mundo em que o poder económico e militar está mais uma vez a carregar o peso que tiveram em tempos menos felizes do passado — mesmo que não necessariamente os mais afortunados.













































