
O que é o “Fast Vintage”? O fenómeno que compromete o mercado de segunda mão
Imagine-se a caminhar por um mercado vintage em 2035. Entre os casacos à medida dos anos 80 e as bolsas de grife dos anos 2000 (que se tornarão cada vez mais raras), surgem dezenas de artigos com a etiqueta Zara a partir de 2023 ou um par de jeans Shein desbotados. Esta cena, outrora improvável, poderia muito bem tornar-se realidade. Enquanto a fast fashion continua a produzir milhares de milhões de peças de vestuário a um ritmo vertiginoso (segundo a Statista, o mercado deverá crescer 74,5% até 2027), o seu destino entrelaça-se com o de segunda mão. Já não estamos a falar de tesouros de colecionador mas de “artefatos de massa”: peças de vestuário que, embora produzidas para serem descartáveis, estão a reencarnar como símbolos do consumismo contemporâneo. E se é verdade que a moda reflete o seu tempo, nestas circunstâncias, não poderia mover-se mais rápido. Com base em dados, conforme destacado pelas análises da McKinsey, não só a produção global de vestuário ultrapassou 100 mil milhões de unidades por ano, como cada vez mais consumidores estão a reduzir a vida de uma peça de vestuário para apenas sete utilizações. Apesar de mais artigos estarem a encontrar uma segunda vida nos mercados vintage e apps de revenda, indicando uma potencial viragem positiva para o meio ambiente, as plataformas de revenda passam a ter cada vez mais marcas de fast fashion, com a Zara e a Shein entre os principais nomes. Para além dos que compram por necessidade económica, todo um segmento do mercado alimenta o desejo de comprar mais com justificação post-hoc. Constantemente alimentada pelas redes sociais, a hashtag #vintage conta agora com mais de 6 milhões de menções no TikTok. O que nos diz esta tendência? A fast fashion não é apenas um fenómeno do presente: está a moldar a nossa imaginação coletiva do passado, redefinir o que consideraremos “vintage” e a alterar para sempre a nossa relação com o tempo, a moda e o seu valor. Ou seja, estamos a assistir a um oxímoro cultural chamado Fast Vintage.
@nolandanielwhite Replying to @ybok3 Why is vintage quality so much higher? #vintage #vintageclothing #2ndhand #secondhand #fastfashion #quality #clothing #vintagefashion #vintagestyle New York Herald Tribune (A bout de souffle) - Martial Solal
Devemos então perguntar-nos o que significa “vintage” hoje em dia. Tradicionalmente, um artigo deve ter pelo menos vinte anos para ser considerado vintage, uma idade que lhe confere uma certa sensação de singularidade, qualidade, e uma narrativa histórica que o contextualize numa época passada. À medida que este conceito muda para uma estética de massa, a história das peças de vestuário corre o risco de ser reduzida a mera transferência de propriedade, enquanto a ideia de singularidade é ofuscada pela facilidade com que um objeto pode ser revendido. Agora que o fast fashion entrou em sites e mercados de segunda mão, mesmo as compras sustentáveis estão a ser empurradas para um ciclo contínuo e cada vez mais rápido de produção e consumo, minando os esforços daqueles que preferem investir em artigos usados duráveis e produzidos de forma ética. Se as roupas de fast fashion abundam nos nossos armários e mercados, que memória de valor estamos realmente a preservar? A lógica da segunda mão, embora mascarada pela ética e pela sustentabilidade, acaba muitas vezes por alimentar o consumismo diferido. Já não se trata de comprar menos e melhor, mas de comprar mais, a preços mais baixos, mantendo o desejo fugaz intrínseco ao fast fashion. No contexto do luxo, as perspetivas já não são estáveis: mesmo este segmento rende sutilmente a qualidade de um passado distante, focando-se no presente — com o qual luta para se conectar, contribuindo para uma forte subida dos preços. Parece que perdemos a capacidade de pensar a longo prazo, ao ponto de algumas marcas parecerem conscientes de que os seus artigos, por mais exclusivos que sejam, serão usados brevemente antes de serem esquecidos.
This is REAL vintage people. Not clothes from five years ago. Respect. https://t.co/67YdOr71fu
— Vanessa Friedman (@VVFriedman) February 28, 2022
Se as roupas produzidas ontem já estão prontas para serem descartadas amanhã, temos um problema. Com o boom da revenda e o ciclo de produção implacável, a moda do passado está a tornar-se tão efémera como os artigos de fast fashion que a povoam. É uma estética que tenta resistir à deterioração cultural. Se o “passado” se tornar uma superestrutura do que antes era “descartável”, que impacto terá isso na forma como fazemos compras e nos vestimos? Talvez a verdadeira revolução não seja escolher entre fast fashion, revenda, ou luxo, mas parar a compra compulsiva. Fazer apenas compras ponderadas, perceber o valor real da roupa, e recuperar uma noção de tempo que vai além do algoritmo do consumo rápido. Se continuarmos a percorrer intermináveis catálogos de artigos de baixo custo, continuaremos a ser prisioneiros de um ciclo que perpetua o mesmo capitalismo que desejamos escapar. A era mística em que a moda era um sonho distante, embora aspiracional, acabou: somos empurrados para um presente pragmático, onde a sociedade já não precisa de contos de fadas sobre mundos encantados mas de peças funcionais capazes de perdurar ao longo do tempo. Agora enfrentamos uma encruzilhada: continuar a construir um presente efémero ou reavaliar o verdadeiro significado de preservar e vestir. Talvez para mudar, precisamos apenas de parar.













































