
Geração Z encontrou uma forma de comprar casa Compra conjunta e co-habitação como resposta a um mercado que se tornou quase impossível
Comprar uma casa sozinho é cada vez menos um marco natural da vida adulta e mais um processo complexo, atrasado e negociado. Durante décadas, a casa própria foi enquadrada como um caminho linear: educação, trabalho, hipoteca, casa, independência. Hoje, essa trajetória desmoralizou-se. Não porque os jovens já não desejem a estabilidade, mas porque o mercado dificultou a sua realização através de meios individuais. Segundo o Eurostat, no quarto trimestre de 2025, os preços das casas na União Europeia subiram 5,5% face ao mesmo período do ano anterior, enquanto as rendas aumentaram 3,2%. A habitação continua a ficar mais cara, enquanto os caminhos da vida ficam mais instáveis.
É dentro desta fratura que estão a emergir modelos como a co-compra e a co-habitação. O primeiro refere-se à compra partilhada de um imóvel entre pessoas que não seguem necessariamente o modelo tradicional de casal: amigos, irmãos, companheiros de quarto, famílias alargadas, pais e filhos. Este último envolve arranjos habitacionais onde coexistem espaços privados e serviços partilhados: quartos ou apartamentos independentes, mas também cozinhas partilhadas, lavandarias, áreas de coworking, jardins, espaços infantis e áreas sociais. Em ambos os casos, a ideia tradicional de propriedade é redefinida: já não apenas posse individual, mas acesso, uso, gestão e partilha.
Geração Z e habitação: porque é que mais jovens estão a escolher modelos partilhados
you’ll be having a good day and then someone your age says they’re buying a house
— shar (@sharloola) July 24, 2024
Não se trata de uma revolução romântica. Trata-se, antes de mais, de uma resposta pragmática. Um estudo citado pelo NYU Urban Lab em 2025 descobriu que cerca de um terço dos adultos da Geração Z estaria aberto a juntar recursos com amigos ou familiares para comprar uma casa, uma parcela maior do que as gerações anteriores. A casa própria não desapareceu da imaginação dos jovens, foi reestruturada. Se a entrada no mercado por si só já não for possível, a alternativa é fazê-la em conjunto.
Este é talvez o aspecto mais interessante: a co-compra não elimina o desejo de propriedade, torna-o colectivo por necessidade. Para muitos jovens, comprar com outra pessoa não significa rejeitar a independência, mas procurar uma nova forma de autonomia dentro de um mercado que tornou a autonomia individual demasiado cara. É um paradoxo geracional: para ser independente, é preciso partilhar mais. A casa deixa de ser um símbolo de separação dos outros e passa a ser uma estrutura de interdependência.
Crise habitacional e novos modelos: o que está realmente a mudar
@owntogether Yes, this feels right. #buyingahouse #realestate #cobuying #sharedownership #friendship A sprinkle of happiness - asa palette cafe
Em toda a Europa, a questão tornou-se central. Um relatório Youth Wiki sobre o acesso dos jovens a habitação acessível e de qualidade destaca como a habitação é uma condição fundamental para a independência, o bem-estar mental e físico, o sentimento de pertença e a capacidade de construir uma vida autónoma. Não ter habitação estável não significa apenas pagar demasiado: significa adiar escolhas, relações, carreiras, famílias e identidades.
A co-habitação entra aqui como um modelo que é mais cultural do que financeiro. Não se limita a dividir custos, mas redefine a relação entre o espaço privado e o espaço partilhado. Depois de anos em que a casa foi concebida como um refúgio individual, quase uma bolha defensiva, a vida partilhada traz de volta uma questão mais antiga: de quanto espaço uma pessoa realmente precisa, e quanto pode ser partilhado sem perder a liberdade? Lavandarias partilhadas, cozinhas colectivas, salas de estudo, áreas verdes, oficinas, quartos de hóspedes: funções que uma vez que cada casa tinha de conter individualmente podem tornar-se infraestruturas partilhadas. Menos metros quadrados individuais, mais serviços partilhados. Menos propriedade como acumulação, mais casa como ecossistema.
Co-viver entre oportunidade e risco: solução ou compromisso?
Naturalmente, existe também uma zona ambígua. O risco é que a linguagem da partilha se transforme em estética imobiliária premium: residências “orientadas pela comunidade”, quartos pequenos, amenidades partilhadas fotogénicas, rendas elevadas, e socialidade pensada como um serviço. Co-living pode tornar-se uma resposta inteligente à solidão urbana, mas também uma maneira elegante de vender menos espaço a um preço mais elevado. A diferença está na governação: quem possui, quem decide, quem fica, quem paga, quem beneficia do valor gerado pela comunidade.
Por isso, a questão não é simplesmente sobre “viver juntos”. Trata-se de perceber se estes modelos abrem verdadeiramente possibilidades ou se se tornam mais uma adaptação individual a um mercado que não muda. Se a co-compra serve apenas para permitir que os jovens assumam dívidas em conjunto, não é uma revolução. Se o co-housing se tornar apenas uma versão mais cool de rendas caras, não é uma alternativa. Mas se estes modelos forem apoiados por regras claras, estruturas cooperativas, acesso ao crédito, proteções legais e políticas de habitação, então podem tornar-se uma das formas mais concretas de repensar a propriedade.
Porque é que a compra de casa está a tornar-se mais difícil?
@shantalksmoney So ridiculous! #starterhome #moneymoneymoney #homeowership original sound -
Neste sentido, a Geração Z não está simplesmente a inventar um novo estilo de vida. É responder a um problema estrutural com ferramentas relacionais. Onde o mercado exige rendimentos individuais cada vez mais elevados, os jovens juntam recursos. Onde a propriedade foi concebida para a família nuclear, surgem novas formas: amizades, redes, famílias não lineares, comunidades temporárias ou permanentes. Onde a independência significava viver sozinho, hoje pode significar viver melhor juntos.
Esta pode não ser a solução. Mas é um sinal claro: se a habitação já não é acessível como uma promessa individual, então a própria propriedade tem de mudar de forma. A questão já não é simplesmente “como é que compro uma casa?” , mas “com quem posso construir uma forma sustentável de viver?” . Para uma geração criada no meio da precariedade, rendas incomportáveis, e cidades cada vez mais caras, a partilha deixou de ser apenas um valor. Tornou-se uma infra-estrutura de sobrevivência.










































