
Em 2026, a Geração Z se endivida para ir de férias Cada vez mais jovens com menos de 30 anos pedem empréstimos para as férias
Para onde ir de férias? A pergunta do verão voltou, junto com a pressão que ela traz. Para muitos, a possibilidade de passar um período longe da cidade onde se trabalha o ano todo não é nada óbvia. As dificuldades económicas entrelaçam-se com um clima geopolítico incerto, e as consequências chegam até ao coração da época estival. Segundo um relatório da Europ Assistance, em 2026 17% dos italianos não irão de férias; destes, 66% desistirão principalmente por razões económicas. Mas ao lado de quem desiste cresce um fenómeno paralelo, menos declarado mas cada vez mais evidente: há quem parta na mesma, mesmo que para isso tenha de se endividar. Em 2026, as férias parecem ter-se tornado um direito irrenunciável, a defender mesmo com instrumentos financeiros de microcrédito. Nos primeiros cinco meses do ano, estima-se que tenham sido concedidos mais de 170 milhões de euros em empréstimos pessoais destinados a financiar viagens e férias. O montante médio solicitado ronda os 5.400 euros, a reembolsar em 50 prestações mensais de cerca de 132 euros. O que surpreende é o facto de quase um terço dos pedidos provir de pessoas com menos de 30 anos: uma geração que cresceu com a Ryanair e o Airbnb, hoje esmagada entre salários precários e um custo de vida que transforma o fim de semana em Barcelona numa despesa a diluir em 50 cómodas prestações.
Vale a pena endividar-se por causa da FOMO?
dubai chocolate labubu matcha latte moonbeam ice cream crumbl cookie gen z stare jet2 holiday… i’m so tired pic.twitter.com/aGI1IicCVF
— ੈ (@wiIdfIowerrrr) July 13, 2025
Por detrás do boom das férias a crédito não está apenas o desejo de evasão — há uma pressão cultural crescente: a de representar o próprio tempo livre online, de performar as férias, de narrar visualmente o próprio bem-estar. Num clima dominado pela imagem, não basta descansar, e assim as férias perdem a sua função primária — regenerar corpo e mente — e tornam-se um conteúdo a produzir, um evento a documentar. Descanso e sucesso andam de mãos dadas, entre feeds e legendas cuidadosamente trabalhados. E quem não pode dar-se a esse luxo? Muitas vezes recorre ao crédito ao consumo por FOMO, ou seja, para não ficar de fora da narrativa coletiva. A discrepância entre possibilidades reais e expectativas performativas produz curto-circuitos evidentes. O tempo livre transforma-se numa obrigação moral, enquanto se consolida a ideia de que até o descanso deve ser quantificado. As alternativas — pequenas saídas diárias, dias em casa entre amigos ou familiares — parecem insuficientes se não forem partilhadas, fotografadas, tornadas públicas. E assim, a liberdade dobra-se à representação.
No entanto, ainda existem formas de pausa que escapam à retórica da viagem documentada. Ficar em casa, ler um livro com as persianas fechadas e o silêncio irreal da cidade que se esvazia não é uma derrota, mas um gesto terapêutico — um espaço mental que se subtrai à lógica da exposição contínua, um tempo suspenso que não pede para ser monetizado. Não são tanto as férias em si que se tornaram necessárias, mas a sua representação. Tomando emprestado um conceito de Baudrillard, já não se vai de férias para descansar, mas para provar que se foi. O simulacro — a cópia sem original — toma o lugar da experiência. E se para obter o pôr do sol perfeito for preciso um microcrédito, pouco importa. Ninguém vai publicar o saldo negativo. Só os Negroni com vista para o mar.












































