Precisamos de uma aplicação até para fazer amigos Mas será a resposta certa para a epidemia de solidão?

Nos últimos anos, o mundo das aplicações de namoro começou a mudar. Uma mudança lenta mas perceptível, impulsionada por um desejo cada vez mais difundido: construir relações autênticas, sejam românticas ou simplesmente amigáveis. De acordo com uma pesquisa recente publicada pela Forbes, os utilizadores gastam hoje uma média de 51 minutos por dia em aplicações de namoro. Uma queda acentuada face a dez anos atrás, quando o tempo médio diário ultrapassava os 100 minutos em plataformas como o Tinder e o Bumble. O verdadeiro boom das apps de namoro ocorreu durante a pandemia da Covid-19, quando as restrições impossibilitaram as reuniões presenciais. Mas com o fim da emergência sanitária e o regresso à normalidade, o uso destas plataformas também começou a diminuir: a percentagem de adultos que utilizam sites de namoro online desceu de 18% para 15%, novamente segundo dados da Forbes. Uma queda que parece mais geracional do que por falta de interesse. Cerca de 80% dos Millennials — o grupo que mais usou estas aplicações — dizem agora que já não se sentem atraídos pelo namoro online, preferindo relacionamentos mais “reais” e significativos. Mas enquanto as aplicações para encontrar uma alma gêmea parecem estar a passar por uma crise, outras com um objetivo diferente estão a surgir: fazer amigos. Uma tendência crescente, também porque hoje a solidão não é apenas um problema romântico. Um estudo da fundação alemã Bertelsmann Stiftung revela que 57% dos jovens europeus sentem-se solitários, moderada ou severamente, enquanto de acordo com uma pesquisa de 2023 encomendada pela Bumble, dois terços da Geração Z relataram ter conhecido pelo menos um novo amigo online.

@doctor.bing Is loneliness bad for your brain? #brain #neurology #brainhealth #neurologist #introvert #lonely #neuroscience original sound - Dr. Bing, MD MPH

O que muitos chamam de epidemia de solidão estendeu-se assim ao reino da amizade, uma vez que as redes sociais incentivam frequentemente interações superficiais que não se tornam verdadeiros laços. E é exatamente aqui que as aplicações de amizade entram em jogo. Um exemplo é o Bumble For Friends, um spin-off da popular aplicação de encontros, que em 2023 se tornou uma plataforma independente com o objetivo de criar ligações apenas de amizade. Há também o Timeleft, uma aplicação que organiza jantares semanais entre estranhos, selecionados por um algoritmo que identifica potenciais afinidades. Ou Hey Vina! , concebido exclusivamente para mulheres, anunciado como o "Tinder para amigos" para promover o encontro de pessoas com interesses comuns. O Bumble For Friends funciona de forma semelhante à aplicação principal, com correspondências individuais e deslizando entre perfis. Já a Timeleft oferece eventos de grupo pagos, como jantares com temas políticos, desportivos ou artísticos. Em Itália, uma app que está a crescer rapidamente é a Tablo, fundada em 2019 por Paolo Bavaro, que viu um pico de utilizadores após a pandemia, atingindo 600.000 membros ativos. O Tablo permite criar uma “mesa de jantar social” num bar ou restaurante, escolhendo um tema específico e deixando qualquer pessoa, em qualquer cidade, aderir. No entanto, uma questão não resolvida permanece: transformar encontros virtuais em amizades verdadeiras e duradouras. Muitos utilizadores, de facto, embora apreciem a facilidade de conexão que estas novas plataformas oferecem, dizem que construir uma verdadeira amizade leva tempo, consistência e uma certa “química” que as apps sozinhas não podem garantir. E, no entanto, a direção é clara. Num mundo cada vez mais conectado e, paradoxalmente, cada vez mais solitário, a tecnologia está a tentar devolver à vida social a sua dimensão humana, mesmo que o futuro das relações pareça ainda ligado ao swiping.

O que ler a seguir