Viajar para o Reino Unido está a tornar-se ainda mais complicado Uma das primeiras e concretas consequências do Brexit

Esta manhã, o London Heathrow — um dos aeroportos mais movimentados do mundo — anunciou que devido a um incêndio que deflagrou durante a noite, vai permanecer fechado durante todo o dia. O incidente provocou o cancelamento de mais de 1300 voos internacionais e um apagão em toda a capital do Reino Unido. Um evento noticioso que pode parecer um verdadeiro desastre para os viajantes, mas a maior catástrofe reside nas notícias recentes de que a partir de abril de 2025, qualquer pessoa residente na União Europeia que deseje visitar o Reino Unido por menos de seis meses terá de pedir autorização específica. O custo inicial desta medida é de 10 libras (cerca de 12 euros), mas o governo britânico já anunciou um aumento futuro dos preços, que poderá atingir os 16 mil libras (cerca de 20 euros). O requisito também se aplica aos passageiros em trânsito pelos aeroportos do Reino Unido que pretendam deixar temporariamente a área internacional. A autorização, denominada ETA (Electronic Travel Authorization), pode ser solicitada através do portal oficial do governo britânico ou através da app dedicada. Uma vez submetida a candidatura, pode demorar até três dias úteis para receber o resultado. Sim, nem todas as candidaturas são aprovadas automaticamente. Se concedida, a ETA terá validade de dois anos, permitindo múltiplas entradas no país.

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No essencial, a iniciativa complica ainda mais a circulação de pessoas entre o Reino Unido e a União Europeia, com todas as consequências que isso implica. O facto é que a introdução da ETA não altera os procedimentos para viajantes provenientes de países que já exigem visto para entrar no Reino Unido. A nova medida aplica-se de facto a cidadãos de países que poderiam entrar anteriormente sem autorizações específicas, incluindo os da União Europeia. Esta alteração é uma consequência direta do Brexit. Desde 31 de janeiro de 2020, o Reino Unido deixou de fazer parte da União Europeia, na sequência de um referendo muito debatido quatro anos antes, em que o voto Leave venceu por pouco mais de três pontos percentuais.

Não, o Brexit não funcionou

Hoje, o Brexit é uma fonte de crescente insatisfação entre os cidadãos britânicos, incluindo muitos que inicialmente votaram a favor da saída da União Europeia. O descontentamento é tão difundido que os meios de comunicação britânicos cunharam o termo "Bregrest”, um jogo de palavras que combina Brexit e arrependimento, para descrever o sentimento coletivo de remorso presente no Reino Unido. Muitos aceitaram agora o facto de o Brexit ter sido um flop. Um dos principais argumentos da campanha pró-Leave foi a redução dos fluxos migratórios, percebidos como fora de controlo. Através da retórica populista, os defensores da saída da UE acusaram os cidadãos dos países economicamente menos desenvolvidos de explorarem o sistema de bem-estar britânico. No entanto, os números mais tarde provaram o contrário: embora a imigração proveniente de países europeus tenha efectivamente diminuído, houve um aumento significativo das chegadas de outras partes do mundo, incluindo um aumento da imigração irregular. Também no plano económico, as expectativas de um Reino Unido mais próspero e independente revelaram-se infundadas. Os dados indicam que entre 2020 e hoje, o Brexit reduziu o PIB do Reino Unido em 2.5%, com um impacto que poderá atingir 4% a longo prazo, principalmente devido ao declínio do comércio com a Europa.

Para além das consequências económicas e migratórias, o Brexit também teve efeitos significativos no setor cultural, particularmente na música ao vivo. Antes de deixarem a UE, artistas e bandas britânicas podiam actuar livremente em toda a Europa sem a necessidade de vistos ou autorizações especiais. Hoje, porém, os músicos têm de enfrentar uma burocracia complexa e dispendiosa. Isso tornou muito mais difícil para os artistas emergentes organizarem turnês no Reino Unido, limitando as oportunidades de crescimento e amortecendo o cenário musical do país. O novo sistema de vistos e autorizações tornou o processo de entrada mais caro e incerto, desencorajando muitos artistas de planearem concertos em todo o Canal. O resultado é uma cena musical menos vibrante, onde basicamente apenas festivais como o Glastonbury conseguem atrair artistas internacionais. Mas mesmo os grandes eventos musicais, outrora referência para a indústria criativa britânica, estão a sentir os efeitos dessas restrições. O Brexit tornou mais oneroso e complicado contratar artistas estrangeiros, levando a line-ups menos diversificados e a uma perda gradual de apelo entre as audiências europeias, que precisam agora de passar por medidas excessivamente burocráticas como a ETA para participar.

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