
O programa Discovery Mode do Spotify é injusto? Segundo muitos, a iniciativa prejudicaria artistas independentes
Em novembro de 2020, o Spotify anunciou o Discovery Mode, uma iniciativa que permite aos artistas ganharem maior exposição dentro da plataforma em troca de uma redução de 30% nos royalties. O serviço de streaming apresenta ainda hoje o projeto como uma oportunidade para quem quer priorizar determinadas faixas da sua oferta musical, influenciando assim a forma como os algoritmos do Spotify sugerem músicas aos utilizadores. No entanto, as críticas continuam. De acordo com uma investigação do The Guardian, muitos observadores da indústria da música e organizações de direitos dos artistas ainda consideram o Discovery Mode como uma forma de “payola”, a prática — agora ilegal — levada a cabo por algumas estações de rádio na era pós-Segunda Guerra Mundial que envolvia receber pagamentos em troca da exibição de certas faixas, inflando artificialmente a sua popularidade. Apesar do programa do Spotify não envolver pagamento direto, os especialistas defendem que a redução dos royalties poderá penalizar os artistas independentes, favorecendo os que têm mais recursos financeiros para apoiar esta estratégia promocional. A Artist Rights Alliance, uma associação norte-americana que representa os interesses dos artistas musicais, num editorial publicado na Rolling Stone, descreveu o Discovery Mode como uma forma de ganhar dinheiro com as costas dos músicos. Até o Comité Judiciário da Câmara dos EUA, que entre outras coisas lida com questões antitruste e direitos de autor, levantou preocupações de que o programa possa levar a uma “corrida para o fundo do poço”, forçando os artistas a aceitar pagamentos mais baixos para terem uma melhor hipótese de serem ouvidos.
@ginotheghost Spotify’s Discovery Mode is literally “Payola” and is accelerating the race to the bottom for artists #fypシ #music #songwriter #podcast #producer #music original sound - Gino The Ghost
O The Guardian relata que mesmo alguns funcionários do Spotify manifestaram preocupações sobre as implicações éticas da iniciativa, salientando que as faixas promovidas são tocadas à custa de outros artistas. Adicionalmente, vários músicos e gestores têm apontado que a falta de uma clara isenção de responsabilidade poderia enganar os ouvintes, que não sabem se uma faixa foi selecionada pelo seu mérito artístico ou por causa de um acordo comercial. Do ponto de vista económico, o Discovery Mode provou ser altamente rentável para o Spotify. Segundo documentos internos citados pelo The Guardian, no espaço de um ano o programa gerou mais de 60 milhões de euros em receitas, com lucros significativos provenientes principalmente do setor da música independente. Além disso, o programa faz parte de um plano de monetização maior realizado pela plataforma: além do Discovery Mode, o Spotify lançou outras ferramentas pagas como o Marquee e o Showcase, que permitem aos artistas ganhar visibilidade através de anúncios promocionais. Embora o Spotify não tenha comentado a receita gerada, respondeu às críticas negando qualquer analogia com a chamada “payola”, afirmando que os utilizadores podem aceder a uma política — que muitos consideram excessivamente vaga — delineando os métodos que determinam as recomendações de música dentro da plataforma.
Hey @Spotify do you think you are helping artists with "Discovery Mode?" pic.twitter.com/VroQCUyFoD
— WZRD Gundlach (@WZRDShip) January 16, 2025
Entretanto, continua o debate sobre a necessidade de rever os modelos de negócio das principais plataformas de streaming de música, levantando dúvidas sobre a sustentabilidade ética da indústria. Outro caso que recentemente colocou o Spotify sob má luz diz respeito a uma investigação da Harper's Magazine. A revista norte-americana noticiou que, durante anos, o Spotify tenta influenciar os gostos dos utilizadores de forma a incentivá-los a usar playlists em segundo plano com mais frequência nas suas atividades diárias. Por esta razão, a plataforma tem alegadamente encorajado a descoberta de tais coleções baseadas principalmente nas imagens e no “humor” que evocam, em vez dos artistas e canções incluídos. O Spotify pode ter povoado essas coleções com os chamados “artistas falsos”, que colaboram com a plataforma para produzir uma grande quantidade de faixas para serem usadas nas suas famosas playlists de humor — como os conhecidos “Stress Relief”, “Lo-Fi House” ou “Chill Instrumental Beats”, entre muitos outros. Esta operação permitiria ao Spotify poupar nos royalties pagos a músicos reais, graças a acordos preliminares com compositores selecionados que são mais rentáveis.













































