O Coachella já não está no Coachella A democratização dos grandes concertos

Era uma vez, para os Millennials mais novos e a fatia mais velha da Geração Z, o segundo fim de semana de abril significava apenas uma coisa: o Coachella. O Indio Music and Arts Festival foi durante anos um fenómeno cultural que transcendeu a localização geográfica e a música; era pura mania. Com a sua cenografia, moda e lista de convidados, o Coachella criou uma fórmula infalível que parecia captar perfeitamente as necessidades tanto daqueles que dedicaram três dias da sua vida a viver no deserto de Palm Springs como daqueles que, a partir de casa, alimentaram um sonho através da estética californiana que estava na moda no Tumblr na altura. Hoje, porém, o Coachella já não tem o mesmo apelo. É difícil explicar porquê: talvez o hype tenha desaparecido, ou simplesmente, os eventos musicais se tornaram descentralizados. Basta pensar nas últimas turnês de grandes estrelas, desde a Eras Tour de Taylor Swift à Renaissance Tour de Beyoncé, até à turnê conjunta de Charli XCX e Troye Sivan — a SWEAT Tour — sem mencionar a crescente democratização dos festivais de música. Nunca antes houve tantos eventos na Europa com line-ups do mesmo calibre do Coachella: Primavera Sound em Barcelona e Porto, Sziget em Budapeste, Lollapalooza em Berlim e Paris, sem falar em festivais de música eletrónica como o C2C em Turim (que agora chegou a Nova Iorque) e o Polifonic na Apúlia. Soma-se a isto um facto surpreendente para a Itália, que durante anos foi esquecida pela maioria dos grandes artistas internacionais: tornou-se agora uma paragem de referência em muitas viagens. Desde o regresso de Tyler, The Creator a Milão depois de 11 anos, à nova onda de artistas coreanos esgotados imediatamente — basta pensar nos Blackpink, que incluíram a Itália na sua próxima digressão. Talvez o interesse cada vez menor pelo Coachella não se deva apenas ao enxame de influenciadores que dominam o evento, mas sim ao fato de que ele não é mais um evento tão único.

@austinbloggy @Megan Thee Stallion joined @Beyoncé to perform the Savage Remix on Night 2 of Renaissance World Tour in Houston. #fyp #beyonce #beyonceconcert #rwt #rwt2023 #renaissance #renaissanceworldtour #megantheestallion #savage #savageremix #concerts original sound - Ben W

Um dos principais problemas do Coachella reside nas enormes despesas que os participantes devem suportar para um único fim de semana. O passe geral de admissão para 2024 começou nos 499 dólares, enquanto o bilhete VIP ultrapassou os mil. Somando voos, alojamento, comida e bebidas, o custo total de um festival de três dias pode chegar a vários milhares de dólares (e para quem viaja do exterior, os custos quase duplicam). É precisamente por isso que o festival já não está a vender como antes: os bilhetes ainda esgotam, mas a procura para 2024 caiu 26% face a 2023, com o evento a demorar mais de seis horas a esgotar em vez dos 40 minutos registados em 2015. No entanto, tal como salienta o Skyscanner, o turismo musical é uma das tendências de viagens mais relevantes dos últimos anos, angariando milhões de fãs em todo o mundo. Vimos isso este verão com a turnê da Taylor Swift, que nos EUA contribuiu para impulsionar o PIB nacional em 4,3 mil milhões de dólares, segundo a Bloomberg Business. Na Europa, no entanto, o turismo musical tende a ser muito mais regional do que internacional, sobretudo considerando que o pacote VIP para o Primavera Sound de Barcelona ainda custa menos do que o passe geral de admissão do Coachella.

Não é apenas a competição europeia que está a “ameaçar” o trono do Coachella, mas também a multiplicação de grandes eventos nos Estados Unidos. Se antes o deserto da Califórnia era o destino definitivo para os amantes da música e da estética boho-chic, hoje a cena do festival expandiu-se a tal ponto que há um festival em quase todos os cantos do país, cada um com o seu próprio apelo distinto. Vejamos o Lollapalooza em Chicago, que atraiu mais de 400 000 fãs de rock, pop e hip-hop há décadas, ou o Bonnaroo no Tennessee, que acolhe mais de 100 000 participantes numa atmosfera “hippie” de campismo e jam sessions noturnas. Entretanto, o Gov Ball de Nova Iorque viu um aumento de 15% na participação em 2023 em comparação com o ano anterior, estabelecendo-se como um evento obrigatório para toda a Costa Leste — especialmente considerando que a sua formação é muitas vezes semelhante à do festival da Califórnia. Cada evento tem o seu próprio público, numa paisagem que fragmenta o mercado e oferece experiências imersivas, muitas vezes a custos e distâncias significativamente mais baixos do que um fim de semana no Coachella. Estas são as razões pelas quais muitos fãs de música agora acham mais fácil e envolvente ficar perto de casa, escolhendo festivais que ainda oferecem uma experiência de alto nível comparável ao evento do Vale do Índio — sem gastar somas astronómicas. Quem sabe se o Coachella conseguirá recuperar alguma relevância cultural este ano e voltar atrás, apesar de um line-up fraco que já decepcionou parte dos frequentadores regulares do festival. Teremos de esperar até abril para saber.

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