
Sucesso da Ozempic está a afetar venda de doces Problemas pela frente para a indústria açucareira
O impacto na saúde do consumo excessivo de açúcar está agora bem documentado, mas o mercado global ligado a este produto continua a prosperar. O advento de novos medicamentos para emagrecer está no entanto a abrir cenários sem precedentes, potencialmente desafiando uma exigência que até agora se mostrou resistente a quase todo o tipo de campanha de sensibilização ou intervenção legislativa. No centro desta transformação estão medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, conhecidos pela sua capacidade de reduzir o apetite, que estão a revolucionar não só o tratamento da obesidade mas também a relação cultural entre consumidores e alimentos. Esta classe de medicamentos, inicialmente desenvolvida para o tratamento da diabetes, está a ganhar muita popularidade. Agindo diretamente no cérebro, reduzem a fome e até os desejos “nervosos” que muitas vezes levam ao consumo de alimentos altamente calóricos e açucarados. Mas os efeitos positivos não se limitam à perda de peso: de uma forma mais geral, muitos doentes relatam uma redução em todos os vícios, do tabagismo ao álcool ao uso de certas drogas, o que no futuro poderá ter repercussões importantes nos hábitos dos indivíduos. A mudança de ritmo não diz respeito apenas à saúde das pessoas, mas já está a deixar vestígios tangíveis na indústria alimentar, particularmente nos Estados Unidos.
i have this feeling that with the rise of conservatism, a return and longing for the yuppie aesthetic and ozempic making ‘thinness’ more accessible that the next body trend is going to be the 80s supermodel body (muscular, athletic figures, tall, svelte but curvy) pic.twitter.com/sgcNQrTeai
— C (@churchofysl) December 11, 2024
Nos Estados Unidos, país onde 74% dos adultos estão acima do peso e 40% obesos, a perspetiva de uma mudança no consumo está a preocupar os setores que historicamente prosperaram graças à disseminação de alimentos doces e açucarados. Como noticia o Financial Times, algumas grandes empresas norte-americanas que operam no setor alimentar já começam a notar os efeitos da Ozempic nas vendas: a cadeia de retalho Walmart, por exemplo, reportou um declínio nas compras de alimentos, enquanto a Mondelez, a PepsiCo e a Hershey registaram uma ligeira diminuição nas vendas provavelmente ligada ao crescente uso de terapias para perda de peso. Para as empresas alimentares, o receio é que, com a disseminação destes medicamentos, dezenas de milhões de pessoas possam não só reduzir significativamente a quantidade de alimentos consumidos, mas também mudar as preferências, avançando para produtos mais saudáveis em detrimento dos snacks embalados — ricos em açúcares e gorduras. A mudança poderá ter consequências que não devem ser subestimadas para o mercado global de açúcar, noticia o New York Times.
Embora os efeitos concretos se manifestem ao longo do tempo, os sinais de uma potencial crise para os produtores e comerciantes são já parcialmente evidentes, e embora, por um lado, se deva sublinhar que os elevados custos dos medicamentos para emagrecer representam uma barreira significativa à sua difusão em larga escala, o mercado poderá rapidamente adaptar-se e evoluir. No Reino Unido, o governo planeou disponibilizar Mounjaro através do sistema nacional de saúde. Ao mesmo tempo, espera-se que os preços caiam no futuro também noutros países, graças à concorrência entre as empresas farmacêuticas e as novas versões menos dispendiosas dos mesmos medicamentos. A difusão generalizada de medicamentos para perda de peso tem sido favorecida pela intensa promoção mediática. Celebridades, influenciadores e campanhas publicitárias têm alimentado a curiosidade e a procura, tornando a Ozempic e similares um verdadeiro fenómeno cultural — que também tem afetado o mundo da moda.
A crescente popularidade da Ozempic e similares tem implicações económicas importantes. Se os preços dos medicamentos para perda de peso caíssem, a “crise dos lanches” poderia rapidamente alastrar-se a mercados emergentes como a Índia — onde o consumo de açúcar é o mais alto do mundo e a obesidade está a aumentar. O mercado do açúcar poderia, portanto, deparar-se com um desafio sem precedentes: embora a possibilidade de converter o açúcar em produtos alternativos represente uma saída para o sector, esses processos demoram tempo e não compensariam as perdas na indústria alimentar a curto prazo. Perante estas dinâmicas, fica claro que os medicamentos modernos para emagrecerem não são apenas uma revolução sanitária, mas também um poderoso agente de mudança económica e cultural, destinado a redefinir a relação de muitas pessoas com a alimentação e a desafiar o ecossistema alimentar global. Posto isto, os possíveis efeitos secundários e limitações dos novos medicamentos para emagrecer não devem ser subestimados: os sintomas mais comuns incluem náuseas, diarreia, cansaço e, em alguns casos, queda de cabelo. Além disso, a eficácia dos fármacos cessa assim que a ingestão é interrompida, o que obriga os doentes a prolongar a terapêutica para manter os resultados obtidos.













































