Porque é que tantos filmes americanos são rodado na Hungria? A crise de Hollywood e a descaliforniação das produções cinematográficas

Era uma vez Hollywood, e talvez nunca mais volte a ser a mesma, pelo menos não como a conhecemos. Recentemente, a FilmLA divulgou um relatório destacando um decréscimo de 5% nas produções de Hollywood em 2024 face ao ano anterior. Um fator-chave neste declínio são as condições desencorajadoras do sistema de crédito fiscal, uma forma de financiamento destinada a atrair grandes empresas produtoras para uma região específica através de incentivos fiscais. A situação é alarmante para a prefeita de Los Angeles, Karen Bass, que está a tomar medidas com um incentivo de 750 milhões de dólares para a indústria cinematográfica da Califórnia. Hollywood, incubadora das mudanças sociais, culturais e políticas americanas ao longo dos últimos 150 anos, tem sido há muito um motor primário do desenvolvimento económico da região, uma indústria colossal de imaginação com impactos tangíveis no país. Segundo os dados, o setor de produção cinematográfica gera um impacto económico de 115 mil milhões de dólares nos EUA, criando cerca de 680.000 empregos — o equivalente a 20% da população da Califórnia. No entanto, estes números podem deixar de ser sustentáveis: os incentivos competitivos oferecidos pela Geórgia, com benefícios de produção de cerca de 30%, estão a incentivar a deslocalização das produções para o Sudeste dos EUA, bem como para países como a Hungria, que acolhe cada vez mais projetos de Hollywood. As produções americanas procuram agora novos destinos — locais mais sustentáveis capazes de se adaptar aos requisitos do guião. Custos de produção mais baixos, regulamentos mais acessíveis e processos de reembolso simplificados facilitados pela assistência local estão a desafiar o domínio de Hollywood.

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A Hungria, polo internacional que produz 250 filmes anualmente, destaca-se como destino preferencial para produções cinematográficas. Desde a queda do Muro de Berlim em 1989, cidades como Budapeste, Praga, Belgrado, Viena e Sofia atraíram roteiros de Hollywood para a Europa Central. Uma gama diversificada de cenários fornece cenários para filmes que se passam em vários períodos históricos, desde blockbusters de ação a dramas históricos e épicos de fantasia. Um exemplo é o Hellboy 2 — The Golden Army: apesar de ter sido filmado na Hungria, o filme recriou uma versão impecável de Nova Iorque nos mínimos detalhes, com carros, lojas, apartamentos, bancos e teatros idênticos aos da América. Com instalações de ponta como o Origo Studios em Budapeste — onde foram filmadas obras-primas vencedoras do Óscar como Poor Things e a sequência do lendário conto de ficção científica Dune de Denis Villeneuve — o país tornou-se num centro florescente para cineastas que procuram palcos sonoros de última geração, cenários intrincados, sequências de ação em larga escala, produção inovadora de efeitos especiais e, mais importante, melhores condições económicas. O Korda Studios em Budapeste, o maior palco sonoro do mundo com mais de 1.500 títulos, também oferece recursos incomparáveis. Com os seus 15.000 metros quadrados de estúdios de cinema, o Korda Studios é o segundo maior da Europa e transformou Budapeste num interior dos anos 80 da Nova Iorque ou Renascentista, hospedando partes de filmes e séries de televisão como Blade Runner 2049, Eric e The Borgias. Não é incomum na Hungria encontrar estrelas como Emma Stone, Mark Ruffalo, Harrison Ford e Zendaya. Até os próprios atores ficam maravilhados com as ofertas meticulosas na área: Ryan Reynolds declarou que o Nu Boyana, o estúdio com sede em Sofia, propriedade do CEO e produtor Yariv Lerner, “está a par de qualquer coisa que se possa encontrar em Los Angeles ou Nova Iorque”.

Além da Europa de Leste, algumas produções americanas também se deslocaram para o Mediterrâneo e para a Austrália. A segunda temporada da aclamada série televisiva The White Lotus foi famosa por se passar na Sicília, onde a produção beneficiou de incentivos fiscais de até 40% em comparação com os 20% da Califórnia. Entretanto, a próxima edição norte-americana do Masterchef será filmada na Austrália, que oferece incentivos fiscais de até 30%. A descentralização de Hollywood — uma indústria cinematográfica que, desde finais do século XIX, tem sido simultaneamente criadora e protagonista dos sonhos de milhares de atores, produtores e realizadores — está a levar a uma reavaliação da concentração de poder num único local. Esta mudança sugere um futuro não só com um, mas muitas novas Hollywoods espalhadas pelo globo.

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