
Eric e a profundidade da alma humana A nova minissérie Netflix bate a marca sem segundas temporadas
Nem toda a gente terá visto If, um filme de John Krasinski que tenta a sua sorte no género do filme de família em técnica mista, depois de ter afirmado o seu estatuto de realizador com o filme de terror “silencioso” A Quiet Place em 2018 (e com a sequência lançada alguns anos depois). Poucas semanas depois do lançamento do filme, que conta a história de uma rapariga e do seu vizinho (Ryan Reynolds) que devem encontrar novos filhos para atribuir velhos amigos imaginários antes que desapareçam, a Netflix lança o contraponto a todas as fantasias dos mais pequenos — aquelas que habitualmente se escondem debaixo da cama — com a minissérie Eric. Estrelado por Benedict Cumberbatch, criado por Abi Morgan e dirigido por Lucy Forbes, Eric é o exemplo perfeito não só de como existem produtos na plataforma de streaming que não têm de ser arrastados por oito temporadas, mas também de como com uma boa história se pode satisfazer muito mais o prazer do público.
Situado na Nova Iorque dos anos 80, num bairro que quer ser decente mas apenas esconde a sua sujeira debaixo do tapete, Eric leva o título do amigo fantote/imaginário com quem Vincent (Cumberbatch) começa a interagir. Pai que perdeu o filho Edgar (Ivan Morris), Vincent espera encontrá-lo novamente trazendo a invenção do menino para o programa dos seus filhos, Good Day Sunshine. Na série, Eric é, portanto, um fantoche com duplo significado. Para o Edgar, tímido e introvertido, é uma ponte de comunicação com o mundo exterior, pois está cansado dos gritos numa casa onde os pais não têm outra maneira de falar a não ser derramar ressentimento um sobre o outro. Para Vincent, por outro lado, o boneco torna-se a única esperança, por vezes louca e desequilibrada, de se aproximar do filho que ele próprio foi o primeiro a afastar. A culpa empurra o protagonista para além da modéstia, para além da sanidade, para além do coração, tornando-o isolado e solitário, ainda mais agressivo e mal-humorado do que o habitual, como investiga, construindo no ar castelos que têm as formas e arquiteturas da suja Big Apple. Em Eric não há apenas a história do desaparecimento para competir pelo centro das atenções, e nem mesmo a dependência do álcool e das drogas que gradualmente começa a obscurecer a mente dos pais — bem como acentua o seu já suspeito e arrogante caráter.
A minissérie escolhe uma estrutura transbordante que surpreendentemente sustenta bem todos os elementos em jogo: há o enredo do policial que acompanha o caso, um homossexual afro-americano numa época em que a SIDA era desenfreada nas ruas; há a corrupção na sua própria estação, onde não é demasiado surpreendente imaginar alguns colegas com registos sujos; há uma discoteca, a Lux, onde as perversões da cidade se encontram. Depois, há o tema da relação pai-filho, complexa qualquer que seja o papel em que se encontre (tanto entre Edgar e Vincent, mas também entre Vincent e o seu pai milionário). E depois há a política, empresarial e hipócrita, que quer que as ruas de Nova Iorque limpas e os sem-abrigo sejam jogados numa lixeira, o mais longe possível dos bairros decentes. E é precisamente no "decente” que o Eric foca, entre a respeitabilidade, o carreirismo e o oportunismo. Enquanto Vincent afunda numa espiral de loucura, alimentado por rios de álcool e vítima de uma psicose fervorosa que traz de volta demónios do passado, a história à sua volta é como um mapa no qual o espectador deve tentar contornar, seguindo tantas reviravoltas quanto a história está pronta para dar. É então óbvio que cada caminho está destinado a fundir-se, e depois voltar ao ponto central: a procura de Edgar. Nesta rede de ligações, a minissérie move-se como um caminhante na corda bamba, e atinge o alvo ao poder manter um olho claro sobre tudo. Nada se perde, nada fica para trás. Queremos aprofundar-nos no quadro geral ao qual o criador Morgan queria levar o observador, trazendo os monstros para fora do armário e pedindo ao público que os seguisse, mesmo para os esgotos.
Não uma obra que nos lembremos como a mais emocionante de 2024, nem tão refinada como Ripley ou tão chocante como Baby Reindeer, Eric é, no entanto, mais um exemplo de como, em vez de visar objetivos de serialidade expansionistas, o formato curto consegue acertar a marca. Ao focar numa narrativa sem pistas deixadas em aberto, mesmo estando repleta de insumos e sugestões — nem o desaparecimento da criança, nem o destino do polícia que ainda acredita na ética do seu trabalho, nem mesmo os microcosmos que Vincent via girar em torno da sua existência, privada e profissional, à medida que se desfez. Não fazendo, enfim, uma segunda e muitas vezes obsoleta estação a solução necessária. Com a sua minissérie, Abi Morgan mostra como a deterioração do “eu” é o primeiro passo para o colapso da vida que se tem esforçado por construir para si mesmo, perdendo a bússola numa cidade que não deixa escapatória, mas que tem contos para oferecer, inclusive obscuros e complicados, e que pode falar a um público alargado. Porque se é verdade que o lema do Vincent's Good Day Sunshine é “Seja gentil, seja corajoso, seja diferente”, às vezes “fique simples, mas eficaz” pode ser um conselho igualmente convincente.








































