
A próxima fronteira do luxo é o prédio de apartamentos Os últimos a embarcar no comboio são Dolce&Gabbana, com residência em Marbella
Na moda, as roupas são apenas o começo. Se durante anos as marcas se expandiram para o estilo de vida e cultura, produzindo filmes, mobiliário, publicando livros, organizando exposições de arte, abrindo cafés e restaurantes, hotéis, e museus, a próxima mega-empresa para a qual a moda está a caminhar é o imobiliário de luxo. Recentemente, por exemplo, a Dolce&Gabbana colaborou com a Sierra Blanca Estates em Marbella para criar um complexo residencial extra-luxo, que já arrecadou mais de 250 milhões de euros junto dos primeiros compradores. O interesse inicial foi reservado a uma clientela selecionada, composta maioritariamente por clientes VIP das duas empresas e compradores já fiéis, que rapidamente absorveram cerca de 35% dos apartamentos disponíveis. Agora, tendo assegurado o compromisso de uma clientela hardcore, o projeto também terá como alvo um público mais amplo — “mais amplo” é um pouco exagerado dado que os preços dos apartamentos começam nos 4 milhões de euros. O custo elevado justifica-se: o complexo, denominado Design Hills Dolce&Gabbana Marbella e localizado na zona conhecida como Golden Mile, tem uma área total de quase 90.000 metros quadrados, abarcando 92 residências totalmente mobiladas com projetos Dolce&Gabbana Casa mas também espaços públicos de lazer, áreas dedicadas a lojas de luxo e restaurantes, uma piscina normal e aquecida com um clube anexo. São verdadeiros enclaves de luxo (vários existem nos Estados Unidos sob o nome de condomínio fechado mas nenhum ligado a uma marca de moda) que prometem condensar a procura e a oferta, tornando-se catalisadores de negócios em locais que têm não só interessado a Dolce&Gabbana como muitas outras entidades.
Conforme explicado no MF Fashion, as residências de marca representam um fenómeno emergente em que já embarcaram empresas históricas como Armani, Fendi, Cavalli, e Missoni. Por exemplo, em 2018, nasceu a Diesel Wynwood em Miami, um complexo que inclui 159 lofts de luxo no coração do Design District; também em Miami, a Baccarat inaugurou o seu próprio arranha-céu contendo 360 apartamentos, e de acordo com a Forbes, “de acordo com pesquisas da indústria, existem aproximadamente 700 residências de marca globalmente, e quase tantas estão em desenvolvimento, todas esperadas para 2030. Uma década de rápido crescimento viu estes projetos aumentarem mais de 150%” e isso não é tudo, pois “espera-se que as residências de marca não hoteleira, incluindo as associadas a restaurantes, carros, moda e joalharia, aumentem 40% dentro de sete anos, representando aproximadamente 20% do inventário global de residências de marca”. Em geral, estes projetos são uma vitória para todas as partes envolvidas: desenvolvedores e clientes desfrutam de investimentos mais seguros e, no caso dos desenvolvedores, maiores retornos e visibilidade; as marcas não só lucram com as vendas como, como explica Mattia Biasi da Witers no MF Fashion, assinam contratos que incluem o uso da marca, com royalties a variar consoante as vendas e serviços oferecidos, variando de 1% a 4% do valor do projeto, com taxas iniciais que podem chegar 500.000, para não mencionar a taxa substancial para desenvolvimento de design de conceito.
The Armani Group, Tadao Ando, and Arada announce their partnership for the design of the Armani Beach Residences Palm Jumeirah in Dubai. pic.twitter.com/rQhwuGTyCI
— Armani (@armani) May 5, 2023
Para os promotores, o prémio sobre os preços das residências de marca pode ser significativo. Por exemplo, as residências Armani no Dubai vão custar 63% mais por metro quadrado do que a média da cidade, mas sobe para 86% segundo a CNN enquanto no Dubai este prémio pode ir até 86% segundo Knight Frank; Savills em vez disso reporta diferenças significativas consoante as cidades, com prémios que variam de 24% a 52% em comparação com residências semelhantes nas mesmas áreas. As áreas geográficas de maior expansão para residências de marca são o Médio Oriente e a América Latina, locais onde os consumidores valorizam particularmente o luxo e o design das grandes marcas. No Dubai, projetos como o Urban Oasis Missoni e o Cavalli Tower estão a redefinir o horizonte, enquanto na América do Sul, marcas como a Elie Saab estão a dar passos significativos, como demonstra o projeto Saffire Residences em São Paulo. Especificamente no Dubai, os preços destas residências estão a atingir novos picos. Por exemplo, o Farol da Bulgari, composto por 31 “penthouses” em 27 pisos, registou uma venda de uma “Sky Villa” por 112 milhões de dólares em fevereiro de 2023, tornando-se o apartamento mais caro da cidade. No primeiro semestre de 2023, a residência vendeu 20 unidades num total de 2,15 mil milhões de AED (585,3 milhões de dólares) segundo a CNN.
Para os compradores típicos destes imóveis, a componente de serviço é extremamente importante, sobretudo se já possuem vários imóveis em todo o mundo. Residências de marca, muitas vezes adjacentes a hotéis ou resorts da mesma marca ou de qualquer maneira que proporcionam acesso a todas as instalações de luxo, mantendo a privacidade no espaço habitacional. No Dubai, residências como a Bulgari Dubai oferecem uma ampla gama de serviços para além do ginásio e spa, transformando o resort num destino para a comunidade local e turistas. As Armani Beach Residences em Palm Jumeirah, desenhadas por Tadao Ando e com conclusão prevista para 2016, incluem um número enorme delas: a compra de uma das coberturas à venda (a básica com dois quartos começa em 5,9 milhões de dólares) inclui também uma viagem a Milão, uma estadia no Armani Hotel e um encontro com Giorgio Armani e a equipa de design para discutir preferências pessoais de estilo. Escusado será dizer que o mercado imobiliário de luxo do Dubai registou um crescimento homólogo de 19% até setembro de 2023, conforme noticiado pela CNN citando Faisal Durrani do Knight Frank Middle East, e o crescimento não mostra sinais de paragem. Apesar das residências de marca constituírem uma pequena fração da oferta imobiliária, aliás, segundo a emissora americana, o setor está a expandir-se rapidamente, com 3.700 unidades em construção só na cidade.













































