O design também é uma questão de ego Porque não é apenas o que projetamos que importa, mas também quem fica com o crédito por isso

Ninguém o avisa realmente. Na escola ensinam-nos a construir um conceito, conduzir pesquisas, escolher uma referência, desenhar uma cadeira ou apresentar um projeto sem parecer demasiado inseguro. Falam-nos de forma, função, material, contexto, sustentabilidade, inovação e ensinam-nos a defender uma ideia, pelo menos em teoria. Quase ninguém, no entanto, o prepara para a parte mais delicada do trabalho criativo: perceber quem, naquela sala, tem o poder de falar, decidir e assinar.

Porque no design o brief oficial é apenas parte do trabalho. O resto não está escrito em lado nenhum: é feito de hierarquias, sensibilidades, status, créditos, pequenas inseguranças e dinâmicas de poder. É o diretor criativo a pedir novas ideias, desde que não desafiem demasiado a sua visão. É o estúdio sénior que permite fazer o trabalho, mas nem sempre permite que apareça. É o sistema que chama tudo isso de experiência, quando por vezes é simplesmente diplomacia de sobrevivência.

Ego e ideias

No design gostamos de pensar que a melhor ideia ganha. É uma mentira elegante, uma daquelas histórias que a indústria conta a si própria para parecer mais limpa do que realmente é. A melhor ideia só ganha quando consegue passar pelo poder sem ser enfraquecida, domesticada ou creditada a outra pessoa. Antes de se tornar um render, protótipo, instalação ou imagem, um projeto deve passar por uma espécie de posto de controlo da alfândega emocional: quem pode dizê-lo, quem pode aprová-lo, quem pode assiná-lo ou quem precisa de se sentir incluído nele. Aqueles que entram hoje no mundo criativo compreendem isso com bastante rapidez: o problema não é apenas ser talentoso. Ser talentoso é a base, talvez nem o suficiente. Também é preciso perceber quando falar, que batalha vale a pena travar, cujo nome deve aparecer primeiro ou qual é o equilíbrio que é melhor deixar intocado.

É uma gramática não dita mas decisiva que muitas vezes separa aqueles que conseguem ficar daqueles que, depois de um tempo, simplesmente se esgotam. A questão não é demonizar o ego. Sem o ego, muitos projetos provavelmente nunca viriam a existir. O ego pode ser a ambição, a visão ou o desejo de deixar uma marca. O design italiano, especialmente o do século XX, está repleto de figuras autorais fortes, reconhecíveis e imponentes no melhor sentido possível. Pessoas que transformaram um objeto num manifesto, uma casa numa declaração, uma cadeira numa pequena declaração sobre o mundo. O problema começa quando o ego deixa de ser energia criativa e passa a ser um mecanismo de vigilância ou quando uma ideia deixa de ser avaliada pelo que poderia vir a ser, mas pelo quanto reforça a centralidade da pessoa que toma as decisões.

Quem decide, quem cria

É aqui que o design deixa de ser apenas uma disciplina de design e se torna uma pequena política diária, onde cada reunião é uma negociação e toda revisão é um teste de equilíbrio. Cada “na minha opinião” pode ser uma contribuição sincera ou uma forma educada de reafirmar a hierarquia. Em ambientes criativos, a forma final de um projeto nunca depende apenas do talento da pessoa que o produz, mas da estrutura relacional que o rodeia. O ego dentro dos estúdios é difícil de nomear porque não vem de fora. Vive dentro de estruturas criativas, nas transições entre júnior, médio, sénior, diretor de arte e fundador.

A Creative Review escreveu sobre como os cargos criativos se tornaram cada vez mais ambíguos, muitas vezes incapazes de descrever verdadeiramente responsabilidades, expectativas e caminhos de crescimento; essa mesma ambiguidade também torna mais difícil perceber quem realmente fez o quê, quem decidiu o quê e quem deve receber reconhecimento. É uma questão “antiga”. No design gráfico, o problema da atribuição de crédito é discutido há anos: o Design Observer já escrevia em 2008 sobre como o trabalho gráfico era frequentemente publicado, premiado ou exibido sem uma identificação clara das áreas de autoria. Outro artigo da mesma publicação, lançado em 2016, descreveu a atribuição justa e precisa como uma questão recorrente na avaliação do trabalho de um designer, precisamente porque nos processos colaborativos os limites da autoria tornam-se cada vez mais escorregadios.

Ter uma voz, mas não perturbadora

Entretanto, o discurso em torno do designer enquanto autor, popularizado por Michael Rock em 1996, tentou deslocar o designer para além do papel de mero facilitador, recuperando voz, responsabilidade e agência. No entanto, na prática quotidiana muitos jovens designers ainda descobrem que a autoria é uma palavra bonita apenas até colidir com uma estrutura hierárquica. O paradoxo é que o design contemporâneo pede aos jovens que tenham voz, mas muitas vezes os recompensa apenas quando essa voz não perturba muito. Deve ser reconhecível, mas não arrogante. Autónomo mas não demasiado independente. Espera-se que traga ideias novas, desde que não desestabilizem aqueles que até ontem tomavam todas as decisões.

É uma forma subtil de treino: não só lhe é pedido que desenhe, mas que calibrar constantemente a sua própria presença. Esta dinâmica não é exclusiva do design italiano, mas em Itália tem um peso particular porque a indústria continua a depender fortemente de relacionamentos, proximidade, reputação, genealogias profissionais e acesso aos lugares certos. O design é internacional quando conta a sua história, mas muitas vezes muito local quando as decisões são tomadas: os projetos são importantes, é claro, mas também as introduções, sobrenomes, escolas, estúdios para os quais trabalhou e quem pode atestar por você.

O custo do ego

@zander_whitehurst Stop doubting yourself as a Junior Designer. Youre not the problem. The problen is companies expectations for early career roles. Early career roles shouldnt require 3 years experience. Juniors cant gain experience without being given experience. #ux #ui #uxdesign #uidesign #figma #design #designer #career #job #remotework original sound - Zander Whitehurst UX/UI

Para muitos jovens, então, a resposta à pergunta “como é que realmente se chega?” não é simplesmente “com um bom projeto”. É através de uma combinação de talento, resiliência, diplomacia, a capacidade de não parecer demasiado ameaçador e, por vezes, sorte social. O design fala constantemente em inovação, mas nem sempre tolera quem chega com uma forma diferente de pensar, sobretudo quando essa forma coloca em crise a posição dos já reconhecidos. É aqui que um conceito frequentemente utilizado no mundo corporativo, mas talvez demasiado raramente no design, se torna relevante: a segurança psicológica. Um estudo publicado na PLOS ONE em 2024 ligou a segurança psicológica ao desempenho inovador através do comportamento comunicativo: essencialmente, as equipas inovam melhor quando as pessoas se sentem livres para partilhar ideias, informações e riscos sem medo de consequências negativas.

Traduzido em design: se um júnior fica em silêncio por medo de parecer presunçoso, se um colaborador evita propor uma alternativa porque sabe que alguém a perceberia como uma ameaça ou se um mais novo deixa uma intuição cair de lado para não perturbar o equilíbrio da sala, o projeto não se torna mais organizado. Torna-se mais pobre. Talvez este seja o aspecto menos discutido: o ego tem um custo. Custa tempo, clareza e qualidade. Cada ideia enfraquecida para não ferir alguém, cada crédito roubado, cada silêncio estratégico, cada encontro em que todos compreendam o problema mas ninguém pode dizer abertamente que produz um design menos vivo. Não necessariamente feio, simplesmente mais cauteloso ou mais conformista.

A dupla linguagem do design

O resultado é que muitos jovens aprendem rapidamente uma dupla língua: a oficial, feita de moodboards, materiais, conceitos, referências e protótipos. E o verdadeiro, feito de frases suaves, timing, renúncias, alianças e intuições psicológicas. Aprendem que uma ideia expressa demasiado cedo pode ser ignorada, mas se repetida por outra pessoa, pode de repente tornar-se brilhante. Aprendem que, por vezes, a maneira mais eficaz de fazer com que uma visão seja aceite é deixar outra pessoa acreditar que a inventou.

Talvez, então, o problema não seja eliminar o ego do design, uma vez que isso seria impossível, talvez até inútil. O problema é redimensioná-lo: tirar o direito automático do ego de se tornar método. Compreender que a liderança criativa não se mede por quantas ideias controla, mas sim por quantas ideias consegue apresentar sem se sentir ameaçado ou que um jovem designer não deveria ter de provar humildade ao desaparecer e que o crédito não é uma concessão, mas parte da cultura do design.

No final, o verdadeiro resumo do design contemporâneo pode ser este: aprender a construir espaços em que as ideias não precisam primeiro sobreviver ao ego de alguém para existirem. Os jovens designers já sabem disso, mesmo que muitas vezes ainda não tenham palavras para o dizer. Eles entram na indústria pensando que o design é forma, função e cultura. Depois descobrem que também é relação, estatuto, medo, vaidade e confiança. Eles descobrem que o projeto é apenas metade do trabalho. A outra metade é perceber quem, na sala, precisa de se sentir importante e decidir, todas as vezes, quanto essa necessidade deve realmente pesar no resultado final.

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