Porque é que não podemos viver sem rituais e cerimónias? Dos para o funeral do papa aos da tomada de posse de um governo, aos simples torrados

Por ocasião da morte do Papa Francisco, à semelhança de outros acontecimentos solenes típicos das instituições civis e religiosas, foi encenada uma longa série de rituais antigos — muitas vezes observados com curiosidade (e por vezes com certo distanciamento), sobretudo pelas gerações mais novas. Estas cerimónias, embora aparentemente independentes, expressam uma necessidade humana específica — mais profunda e universal: a necessidade de chegar a acordo com a realidade e a vida quotidiana através de atos partilhados e simbólicos. Embora o aparato litúrgico da Igreja Católica represente uma das manifestações mais reconhecíveis desta necessidade universal, os rituais como tal não pertencem unicamente à esfera religiosa. Na verdade, se prestarmos atenção, afectam muitos aspetos da vida social. Um ritual é também, muito simplesmente, o ato de um brinde: levantar copos, tilintá-los juntos e só depois beber — em alguns casos, lembrar-se de primeiro descansar a base do copo sobre a mesa, sem fazer contacto visual com alguém que o faça com uma bebida não alcoólica. Neste gesto aparentemente efémero, se olharmos de perto, encontramos os elementos fundamentais de cada ritual: repetição, simbolismo e sincronização dos participantes. As mesmas características estão também presentes nas cerimónias mais solenes e institucionalizadas, como a abertura dos Jogos Olímpicos, a tomada de posse de um novo primeiro-ministro, ou, aliás, o funeral de um pontífice.

O que diz a ciência

Durante muito tempo, a antropologia — disciplina que estuda o ser humano, considerando também os aspectos culturais e sociais — documentou a presença e a importância dos rituais em todas as religiões e de forma mais ampla em todas as civilizações. A verdade é que não existem culturas sem cerimónias mais ou menos codificadas. Especificamente, os rituais são ferramentas de coesão social através das quais as comunidades enfatizam indiretamente os seus valores, enfrentam mudanças, processam a dor e reafirmam a sua identidade. Uma das principais funções das cerimónias é gerir as transições críticas da vida individual e coletiva: no caso da morte, por exemplo, a função de um funeral é não só prestar homenagem ao falecido mas também oferecer à comunidade um momento simbólico através do qual processar o luto.

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Até os desfiles de moda, de certa forma, podem ser considerados um ritual, uma vez que respondem a muitas das características típicas das cerimónias, incluindo a ciclicidade, por vezes forçada. Não é por acaso que em 2020 Alessandro Michele, quando era diretor criativo da Gucci, anunciou que só apresentaria coleções duas vezes por ano e disse querer abandonar o cansado ritual da sazonalidade”. Na verdade, existem muitos rituais que — mesmo que nem sempre reconhecidos como tal — se desenvolvem em contextos completamente seculares. Em alguns casos, aliás, só existem há relativamente pouco tempo. Em Itália, por exemplo, desde 1996, a chamada “cerimónia do sino” marca a tomada de posse de um novo governo, onde o primeiro-ministro cessante entrega ao sucessor a ferramenta utilizada para abrir e regular as reuniões do Gabinete (um sino, de facto). Outros rituais relativamente modernos que têm uma função semelhante aos ritos religiosos incluem a troca da guarda ou celebrações cívicas como 25 de abril ou 2 de junho — novamente, em Itália. Os rituais, no entanto, nunca são “neutros”: podem incluir ou excluir, reforçar hierarquias ou desafiá-las, consolidar o poder ou questioná-lo. Além disso, os rituais não são apenas uma questão colectiva mas também individual. Os seres humanos, por natureza, organizam o tempo e a sua presença no espaço de acordo com lógicas que muitas vezes vão além da mera utilidade. Cada pessoa, por vezes inconscientemente, põe em prática pequenas liturgias pessoais no quotidiano, que oferecem um sentido de controlo e estrutura ao dia. Mas mesmo quando parecem anacrónicos ou puramente formais, os rituais referem-se sempre — de uma forma ou de outra — à condição humana.

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