Os dados de Trump são um problema para os automóveis da indústria automóvel E por muito mais: o risco de uma guerra comercial global é muito elevado

Era 2018 quando o presidente Trump — durante o seu primeiro mandato — disse ao ex-presidente francês Emmanuel Macron durante uma reunião que faria tudo ao seu alcance “para nunca mais ver um Mercedes na 5ª Avenida em Nova Iorque”. Sete anos depois, o objetivo do Presidente parece manter-se o mesmo. Entre empresas e governos em todo o mundo, existe uma preocupação crescente com as controversas tarifas anunciadas recentemente por Trump. A medida corre o risco de perturbar o comércio internacional e as exportações para o mercado dos EUA devido a impostos que vão penalizar os bens — com a ameaça real de uma recessão global e aumento da inflação. Os receios já impactaram os mercados financeiros em todo o mundo: muitos investidores estão a correr para alienar ações de empresas fortemente expostas ao comércio dos EUA, causando quedas significativas nos preços das ações. Um dos setores mais atingidos é a indústria automóvel, que foi sem surpresa a primeira a antecipar ações de retaliação. A Volkswagen, atualmente enfrentando uma grande crise, anunciou que iria introduzir uma taxa extra nos carros importados dos Estados Unidos e informou os concessionários locais dos planos para revogar todos os descontos existentes. A empresa alemã decidiu também suspender o acesso a todos os seus veículos enquanto se aguarda a entrada nos EUA.

Segundo estimativas da Bloomberg, a potencial implementação das novas tarifas de Trump poderá acabar com até um quarto dos lucros operacionais projetados para 2026 para a Porsche e a Mercedes-Benz, obrigando os fabricantes a aumentar os preços ou realocar parte da sua produção para os Estados Unidos. Para uma marca como a Porsche — já em dificuldades no mercado chinês e agora focada nas exportações para os EUA, que se tornou o seu mercado externo mais importante — o impacto poderá ser particularmente crítico. Atualmente, a empresa sediada em Estugarda não tem fábricas de produção em solo americano, e as concessionárias americanas dependem inteiramente de importações. Essa dependência estrutural poderia sair pela culpa, mesmo para gigantes como a Volkswagen — já em crise e prontos para suspender descontos em veículos importados — e a BMW, que seria forçada a operar num dos mercados mais rentáveis com margens drasticamente reduzidas. No entanto, não são apenas as marcas de luxo que sofreriam: fornecedores-chave como a Bosch e a Continental também seriam atingidos por esta nova onda de protecionismo. Os dados da Bloomberg confirmam o quão transversal é a dependência das importações: 80% dos carros Volkswagen vendidos nos EUA são fabricados no estrangeiro, assim como 63% da Mercedes-Benz e 52% dos veículos BMW.

@frontline_focus The management teams of several #German car brands, including Mercedes-Benz, #BMW, and #Volkswagen, have expressed opposition to the new tariffs on Chinese EVs proposed by the European Commission a few days ago. #tariffs #EU #EV #EuropeanCommission original sound - Frontline Focus

“Em 2024, as marcas automóveis alemãs despejaram quase 450 mil veículos no mercado dos EUA, o equivalente a cerca de 25 mil milhões de dólares em vendas. Para Berlim, os EUA continuam a ser o destino comercial mais importante para os produtos nacionais — ainda mais do que o vasto mercado chinês”, explica o Il Manifesto. Além disso, a cadeia de fornecimento de veículos com destino aos Estados Unidos envolve há muito toda a região norte-americana — não apenas os EUA, mas também o México e o Canadá. Neste contexto, as tarifas representam um grande problema não só para os automóveis que entram no país mas também para o comércio de componentes e peças semi-acabadas, que são frequentemente transportados de uma fábrica norte-americana para outra. Por isso, o Il Manifesto refere-se a ele como “um embargo inquebrável”. De acordo com uma sondagem recente, mais de 80% das médias empresas automóveis alemãs esperam sentir o impacto das tarifas impostas por Trump, o que provavelmente não afetará apenas as grandes marcas. Para a Alemanha, “com produtos a custarem 25% mais para os consumidores americanos, superar a era Trump com danos mínimos parece uma missão quase impossível”. Mas a medida não prejudica apenas as empresas alemãs. A Stellantis, multinacional com sede holandesa, já anunciou que vai encerrar a produção em duas fábricas no México e no Canadá, demitindo quase mil funcionários norte-americanos. Mesmo a Tesla não acolheu com agrado as novas tarifas: a empresa de Musk fornece muitos componentes para os seus veículos elétricos de vários países estrangeiros, que estão agora sujeitos a taxas problemáticas dos EUA.

Porque é que as tarifas de Trump não fazem sentido

O banco central dos EUA, a Reserva Federal, afirmou abertamente que estas tarifas correm o risco de desacelerar o crescimento económico dos Estados Unidos. Na essência, a medida é apoiada apenas pela administração Trump. A sua equipa acredita que importar mais bens do que uma exportação para um país é um sinal de fraqueza comercial. Na realidade, a teoria económica diz o contrário. As tarifas são hoje consideradas pela maioria dos especialistas como ferramentas ultrapassadas cuja eficácia tem sido questionada à luz de décadas de globalização. Este tipo de tributação conduz frequentemente a resultados contraproducentes. Por exemplo, em 2018, Trump lançou uma guerra comercial contra a China, que respondeu com as suas próprias tarifas — principalmente sobre os produtos agrícolas dos EUA — prejudicando grandemente o setor. A administração Trump foi então forçada a alocar quase toda a receita tarifária para apoiar os agricultores em dificuldades, cancelando qualquer ganho potencial. Se isso não bastasse, a grande maioria dos economistas considerou a metodologia por trás dos últimos cálculos tarifários completamente absurda. A medida de Trump aplica-se a mais de 100 países em todo o mundo, incluindo aliados de longa data dos EUA, como Israel. Surpreendentemente, a lista inclui também territórios desabitados que naturalmente não têm relação comercial com os Estados Unidos. Por exemplo, as Ilhas Heard e McDonald, administradas oficialmente pela Austrália e localizadas no meio do Oceano Atlântico, são maioritariamente povoadas por pinguins. Outro alvo estranho das tarifas dos EUA são os Territórios Britânicos do Oceano Índico, entre a Tanzânia e a Indonésia, onde a única presença humana são militares dos EUA estacionados numa base.

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