A música italiana está de volta às suas raízes de pequena cidade Abri caminho para cantautorato

A ideia de uma cantora e compositora tal como a conhecemos em Itália coincide, na memória coletiva dos nossos pais, com figuras como Teresa De Sio, Fabrizio De André, Domenico Modugno ou Gino Paoli. São artistas que puderam contar a história do país através de costumes, amor e contos transmitidos de geração em geração, de província em província. Como legendas num museu folclórico que representa, sem filtros, as figuras humanas impressas na nossa história. Os cantores e compositores são parte integrante da herança italiana, um tesouro que faltou nas últimas duas décadas mas pode ter finalmente regressado — e o segundo lugar de Lucio Corsi no Festival de Sanremo representa o ponto de partida: através da música, algo está finalmente a acontecer em Itália. Entrevistado em toda parte por revistas e programas de televisão, como um verdadeiro cantor e compositor, Lucio Corsi afirma que encontra paz e concentração não em Milão mas apenas na Maremma da Toscana, imerso na natureza e longe das estratégias da indústria. O artista — que vai ocupar o lugar de Olly, o vencedor do Festival, no Festival Eurovisão da Canção — tem enfatizado repetidamente como as pessoas dos seus locais de origem são uma das suas maiores inspirações, e muitas vezes esclarece que depois de passar muito tempo em Milão, quer agora voltar para a sua amada Toscana. Em suma, parece mesmo que a música italiana, depois de uma enorme viagem que levou Måneskin numa maravilhosa digressão mundial, voltou a contar a história da província.

Para além de Lucio Corsi, muitas bandas italianas estão a fazer a diferença: uma das mais notáveis é a Delicatoni, banda sediada em Vicenza formada por Antonio Bettini, Smilian Jack Cibic, Giorgio Manzardo e Claudio Murru. Via WhatsApp, a Bettini diz-nos que não seguem uma única direção de género, pois o seu som vai do alt-pop ao psych-pop, passando pelo menos conhecido solar pop. O que fascina na sua música é o ecletismo, a precisão do gesto dentro do caos total. As suas letras apresentam uma geografia precisa e uma busca contínua por lugares e temas pertencentes a pequenas províncias italianas sem exagero ou egoísmo. As suas referências musicais são infinitas e ultrapassam fronteiras geográficas, uma cor que não nos empurra a fantasiar sobre grandes metrópoles ou capitais celebrados pelo frenesi da classe criativa, mas antes convida algo mais íntimo, um mundo que não precisa de grandeza para existir. Fora das trajetórias das grandes gravadoras, em cidades como Pádua, Vicenza e Turim, está a ser construída uma nova identidade.

A mudança torna-se mais evidente quando o fenómeno começa a tomar conta mesmo em mundos que, historicamente, se mantiveram ancorados nas suas tradições, como é o caso do rap. No último álbum do Marracash, È finita la pace, amostras de grandes artistas da música italiana como Ivan Graziani, Pooh e Giacomo Puccini entrelaçam-se com a voz contemporânea do rapper num trabalho total dedicado e adorador da criatividade do Made in Italy. Artistas como Lucio Corsi, Marracash e os emergentes Delicatoni demonstram assim que a criatividade italiana ainda existe e está a apaixonar-se por narrativas ligadas às suas raízes. Na canção que vai trazer para a Eurovisão, Corsi conta como queria ser duro, um ganso dourado: a esta altura, parece mesmo que ele conseguiu.

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