“Beijos de Cicciolina”: entrevista à diva que provocou toda a Itália A história da estrela porno número um da Itália, contada por ela mesma

Ilona Staller, conhecida mundialmente como Cicciolina, é uma figura multifacetada que conseguiu captar a atenção do público em todas as encarnações: artista, ícone erótico, atriz e até parlamentar. Mais do que uma diva, no auge da sua carreira, Cicciolina tornou-se um fenómeno, um sonho coletivo, e sobretudo, uma das figuras mais disruptivas da paisagem italiana, entre os responsáveis por demonstrar que uma estrela porno pode ter a profundidade de um artista num país muitas vezes tão moralista como a Itália. Muitas memórias estão encapsuladas no livro Memorie — Racconto fotografico di un mito, que documenta toda a história da diva que provocou toda a Itália, desde o set de filmagem à política, passando pelo entretenimento e pela rádio. Mas o que é que Ilona Staller está a fazer hoje? Os seus dias, como ela nos diz, são talvez menos agitados do que no passado mas não menos cheios: “À noite, gosto de ir para a cama cedo porque adoro sonhar. De resto, sonho sempre a cores, nunca a preto e branco”. Os sonhos, para ela, representam um aspeto importante da sua vida, quase uma extensão da sua criatividade. “Quando acordo, tomo o pequeno-almoço e corro para o ginásio, o que é essencial na minha vida”. Cada sessão de treino dura cerca de duas horas. Ilona passa a tarde entre momentos de relaxamento e trabalho. “Navego na internet, cuido do meu site, respondo e-mails, e depois faço alguns passeios”. Imperdível é o tempo dedicado aos seus amados gatos: “Brinco com os meus gatos, tenho oito em casa”. As noites, por outro lado, são muitas vezes dedicadas a eventos públicos. “À noite, saio para jantar, falo com amigos, e talvez se tiver um evento numa discoteca ou precisar de ir a um restaurante como convidado de honra, vou”. A vida de Cicciolina é, no entanto, tudo menos monótona: “Este é o meu dia típico, mas muda sempre”.

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"Playman" (ca.1980) Photo Courtesy by Riccardo Schicchi.
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Discografia Ilona Staller. Photo Courtesy Riccardo Schicchi.
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"Playman" (ca.1980) Photo Courtesy by Riccardo Schicchi.
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Foto in Studio Anni 80 con gatto Nuvola. Courtesy by Riccardo Schicchi

Não se pode falar de Cicciolina sem mencionar a sua carreira na indústria do cinema adulto, o que a tornou um ícone internacional. Após os primeiros passos no cinema erótico na década de 1970, Cicciolina embarcou numa carreira na pornografia que a estabeleceu como uma das figuras mais icónicas da indústria. A sua ascensão começou em 1983 com o filme La conchiglia dei desideri, e continuou com grandes sucessos como Telefono rosso e Cicciolina número um, até a sua aposentadoria da cena em 1991. A sua personagem contribuiu para uma nova visão da sexualidade nos anos 80, transformando-se num símbolo de liberdade sexual e provocação, trazendo a pornografia para o centro das atenções. “A minha carreira porno não durou muitos anos porque eu era a estrela porno número um. Fiz cerca de 15-20 filmes porno, e eram muito bonitos”, relata orgulhosamente. A personagem de Cicciolina nasceu na década de 1970 durante as suas emissões na Rádio Luna. Cicciolina foi não só uma estrela porno mas também uma cantora e apresentadora de rádio de sucesso, capaz de misturar provocação e entretenimento, como evidenciado pela sua longa carreira na rádio e na televisão. “Costumava falar no ar sobre sexualidade, doçura, amor, tudo relacionado com sexo”, explica. A alcunha era uma invenção espontânea: “Chamei-lhes “cicciolini” e, como os ouvintes gostaram, de uma emissão para outra, tornei-me Cicciolina”. Para Ilona, o nome tem um significado profundo: “Cicciolina significa amor”. A personagem, que ela descreve como “uma menina doce, eterna, desinibida e maravilhosamente nua”, representa para ela um mundo de sonhos eróticos que podem tornar-se realidade. Os seus filmes, agora difíceis de encontrar, tornaram-se objetos de culto. “Os meus vídeos não são facilmente encontrados por aí, pelo menos não facilmente, porque se tornaram vídeos icónicos, tal como a minha personagem, que é um ícone”.

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Foto Servizio con Serpente Pito Pito anni 80. Courtesy by Riccardo Schicchi.
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Anni '80 "C'era Due Volte" su Rai 2. Photo Courtesy by Riccardo Schicchi.
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"Playman" (ca.1980) Photo Courtesy by Riccardo Schicchi.
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Foto alle Isole Mauritius. Courtesy by Riccardo Schicchi

Um momento crucial na vida de Cicciolina foi o encontro com Riccardo Schicchi, um visionário diretor e fotógrafo. Riccardo Schicchi, realizador e produtor, distinguiu-se pela gestão de estrelas da indústria e pela produção de filmes eróticos que misturam provocação e crítica social, consolidando ainda mais a ligação entre a indústria do sexo e a cultura popular do país. “O meu encontro com Riccardo Schicchi aconteceu através de um atendedores de chamadas. Vivia em Roma e tinha uma atendedoras onde uma manhã encontrei uma enxurrada de mensagens de Riccardo Schicchi. Disse: “Sou fotógrafo e preciso conhecê-lo porque precisamos de tirar fotos para uma revista””. Schicchi e Cicciolina formaram uma parceria artística inesquecível: “Fomos a parques, casas abandonadas, piscinas de água sulfurosa para tirar fotos”. Ilona enfatiza a autenticidade dessas imagens: “Os slides daquela época eram todos originais, não como as fotos de hoje que podem ser retocadas”. Cicciolina nunca renegou esta fase da sua vida: “Nunca disse que quero eliminar a pornografia da minha história de vida. Essa parte permanece e permanecerá por toda a vida”. Ilona recorda com diversão um episódio durante as filmagens de um filme: “Havia um tipo, um estudante universitário, que só para fazer sexo comigo naquele dia se tornou uma estrela porno. Trouxe uma camisinha com ele, mas não conseguia colocá-la — também porque o seu tamanho era bastante grande. Estava a ajudar, mas todos quebraram. Todos eles, todos eles, todos eles! ”.

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Copertina del libro "Memorie". Foto alle Maldive courtesy by Riccardo Schicchi
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Anni '80. Foto Courtesy by Riccardo Schicchi.
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Anni '80 "C'era Due Volte" su Rai 2. Photo Courtesy by Riccardo Schicchi.
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Courtesy by Riccardo Schicchi
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Cicciolina sempre sustentou que os italianos adoram sexo e pornografia. “Tenho a certeza que os italianos gostaram muito de sexo e pornografia”, afirma. As suas atuações em discotecas foram eventos memoráveis: “Fiz milhares e milhares de espetáculos em discotecas. E nua, e as minhas performances eram muito bonitas porque eu tinha cenografia com efeitos especiais. Centava as minhas canções porque gravava 50 canções”. Cicciolina teve uma carreira como diva de discotecas e intérprete ao vivo, durante a qual se exibiu de forma provocativa e sensual, conquistando uma multidão de fãs que apreciavam não só o seu corpo mas também o seu espírito de rebelião. O seu impacto na cultura italiana foi enorme: “Nas discotecas, encontrava sempre tantas, tantas, tantas pessoas que vinham ver-me. De 5 000 a 7 000, 10 000 pessoas. Lembro-me que em Milão havia 25 000 pessoas durante seis dias de espectáculos. Foi delicioso, lindo”. Cicciolina não se limitou ao mundo do entretenimento mas também trouxe a sua transgressão para a política. A sua campanha eleitoral em 1987 foi tão ousada como memorável: “Andei por aí num jipe conversível vermelho com as minhas músicas no volume máximo e os meus seios ao vento. Eu usava um vestido branco e tinha uma coroa de flores no meu cabelo loiro”. Uma imagem icónica, que ela descreve como “diretamente de uma pintura de Botticelli”. Durante os comícios, houve de facto ocasiões em que Cicciolina expôs os seios, ato que levou a inúmeras acusações por “atos contrários à decência comum”.

A sua candidatura causou um grande escândalo e foi objeto de discussão em todo o país, não só pelo seu passado no mundo pornográfico mas também pela sua atitude desinibida, que contrastava fortemente com as convenções políticas italianas. Cicciolina conseguiu, no entanto, conquistar um lugar no Parlamento italiano, obtendo mais de 20 000 votos, uma conquista que a tornou o símbolo da política não convencional. Mas o sucesso que Cicciolina teve nesse ano foi na verdade o culminar de uma influência exercida na mente coletiva dos italianos com cada um dos seus empreendimentos criativos: “Já fazia política através dos meus programas, também a falar com as pessoas”, conta. Decidiu juntar-se ao Partido Radical de Marco Pannella, de quem recorda com carinho: “Ele deu um tapinha na minha cabeça e disse: “Diga-me quais são os pontos da sua campanha eleitoral””. As suas propostas legislativas foram revolucionárias para a época e abordavam questões como a regulação da sexualidade nas prisões, a educação sexual nas escolas, e a abolição da Lei Merlin, a tributação dos veículos a gasolina, e a proibição da venda de peles e testes em animais — bem como o que hoje chamaríamos de “educação emocional-afetiva” e que ainda hoje debatemos.Propus novas normas sobre a revisão de obras cinematográficas e teatrais, modificações às normas relativas a atos obscenos, publicações, e espetáculos, o estabelecimento de parques amorosos e hotéis, e o estudo da sexualidade nas escolas italianas”, acrescenta. Em 1987, Cicciolina entrou oficialmente no Parlamento, segundo no número de votos depois de Marco Pannella. “Durante o meu tempo no Parlamento, que durou cinco anos, apresentei cerca de 12-15 propostas legislativas, cumprindo a minha promessa aos eleitores”. Ainda hoje, as suas intervenções são lembradas pela sua previsão — se a tivéssemos ouvido, talvez hoje viveríamos numa Itália melhor.

Em 1991, Cicciolina casou-se com o artista norte-americano Jeff Koons, um dos mais conceituados expoentes da pop art, cuja fama já estava estabelecida. O casamento deles não foi apenas uma união privada mas também um encontro de dois mundos: a arte contemporânea e a indústria pornográfica. Koons, conhecido pelas suas obras que brincam com a cultura de massa, criou algumas das suas peças mais famosas inspiradas na sua relação com Cicciolina, incluindo a série Made in Heaven, que as apresenta em imagens altamente eróticas e provocativas, tornando-se exemplos claros de como o trabalho de Koons refletiu a dinâmica de celebridade e provocação na cultura popular, criando um diálogo entre a arte “alta” e a “baixa”. Hoje, Ilona continua a sua atividade artística e, claro, mantém o seu papel de celebridade: “Pinto as minhas belas pinturas, canto as minhas maravilhosas canções, e faço muitos reality shows em Itália e em todo o mundo”, explica. A sua produção artística vai das artes visuais à música, passando pela televisão. Ilona atribui o seu sucesso à sua energia inesgotável: “A razão do meu grande sucesso? Nunca paro”. Quando perguntado se faria tudo de novo, responde sem hesitar: “Eu faria tudo exatamente igual. Diverti-me muito e ainda me divirto”. Cicciolina continua a ser hoje um ícone da transgressão e da liberdade. “Hoje, o sexo e a pornografia são considerados normais, mas ainda um pouco tabu”, observa, refletindo sobre a forma como a sociedade mudou. Mas, como recorda, “já nada é provocação, porque há tudo e mais”. Com um sorriso e o seu carisma inconfundível, Cicciolina deixa-nos com uma certeza: “Afinal, sou artista”.

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