O que é que se passa entre Sanremo e Rai? O Festival de Música Italiana na Mediaset parece insondável

O contrato da Rai para o Festival de Sanremo pode estar a chegar ao fim. Na passada quinta-feira, o TAR da Ligúria declarou ilegítima a “adjudicação direta a Rai pela Câmara Municipal de Sanremo para a organização do festival”. Um raio do azul, a menos de uma semana da revelação dos Grandes nomes que concorrem na edição de 2025. No entanto, segundo declarações, a próxima edição deverá ser segura, mas a partir de 2026, o evento cultural emblemático da Itália poderá potencialmente ir ao ar em qualquer rede de televisão. A razão? O Tribunal da Ligúria revelou que em março de 2023, a empresa Just Entertainment tinha manifestado interesse nos títulos e direitos “à exploração económica e comercial do Festival Sanremo”, bem como nos direitos de marketing, promoção e radiodifusão. Anteriormente, os direitos tinham sido confiados à Rai para as edições de 2022 e 2023, com uma extensão para a edição de 2024, todas sob a direção artística da Amadeus. Rai foi rápido a responder a estas acusações através de uma nota de imprensa oficial, afirmando que o Festival vai manter-se no canal principal e que não há “nenhum risco de que o evento musical, na sua forma atual, possa ser organizado por terceiros”.

A principal questão levantada pelo TAR não é tanto o Festival como um formato, mas sim a sua imagem enquanto marca. Apesar de Rai deter apenas os direitos televisivos, a empresa defende que o formato e a marca tornaram-se indissociáveis, tornando impossível confiar o Festival a outra festa. De acordo com esta perspetiva, só Rai poderia continuar a geri-lo. No entanto, o TAR não concordou com esta interpretação. Os juízes determinaram que a marca e o formato não eram os mesmos, ordenando assim o início de um procedimento público para a atribuição do evento. O acórdão esclarece que “o município detém a marca e é, por isso, livre de associá-la (na sequência de procedimento público) a outros formatos que não os da Rai”. Para complicar ainda mais as coisas, a Codacons interveio, acusando a Rai de criar um “monopólio incompreensível que favorecia a rede estatal em detrimento da concorrência de outros operadores, falha sobre a qual os juízes se manifestaram agora declarando ilegítima a adjudicação direta”. Se a entidade Viale Mazzini perdesse efectivamente os direitos à Sanremo, o impacto nas suas receitas seria severo. Numa perspetiva publicitária, o Festival de Música Italiano tornou-se, nos últimos anos, quase o Super Bowl italiano: a edição de 2024 gerou 60,2 milhões de euros em receitas publicitárias, marcando um aumento de 10 milhões face ao ano anterior. Aliás, segundo as demonstrações financeiras de 2023, a receita dos cinco dias da Sanremo representa cerca de um décimo do rendimento anual da Rai. Afinal, parece que Amadeus tinha uma visão clara.

O que ler a seguir