A lei italiana da cadeia de abastecimento da moda está a aproximar-se Até ao final do ano, deverá estar em obras uma certificação oficial do Made in Italy

O governo italiano decidiu intervir para reforçar a proteção do Made in Italy através da introdução de uma certificação oficial da cadeia de fornecimento de moda. Segundo a MF Fashion, o ministro das Empresas e Made in Italy, Adolfo Urso, explicou que com alterações específicas ao projeto de lei das pequenas e médias empresas, que deverão ser aprovadas na próxima sessão orçamental, serão introduzidas medidas para reforçar a competitividade e reputação internacional da moda italiana. Como salientado pelo Corriere Nazionale, a inovação mais significativa é a introdução de um sistema único de certificação da conformidade, uma espécie de “selo de garantia” anual sujeito a verificações periódicas através de auditorias e inspeções. Será ainda estabelecido um registo público de empresas certificadas no Ministério das Empresas e Made in Italy, com possibilidade de revogação em caso de violações ou perda de requisitos. “Preparámos medidas que certificam a sustentabilidade e a legalidade, para contrariar aqueles comportamentos ilícitos de uns poucos que arriscam comprometer a reputação de todo um setor”, afirmou Urso no final de julho durante a Fashion Table, enfatizando que o resultado é o resultado da colaboração com as principais associações do setor, incluindo a Câmara Nacional de Moda Italiana, a Confindustria Moda, e Altagamma. A par da certificação, a secção Destinazione Italia da medida prevê também ações destinadas a atrair investimentos estrangeiros e profissionais, incluindo incentivos fiscais para aposentados estrangeiros, facilitações para gestores de empresas internacionais, e novas oportunidades de visto para aqueles que escolhem a Itália como base para trabalhar remotamente.

A medida surge numa altura em que a reputação do Made in Italy parece mais frágil do que nunca. Nos últimos meses, ou talvez mais precisamente ao longo do último ano, todo o sistema foi abalado por críticas e escândalos que minaram a autoridade (e credibilidade) da indústria. Falar hoje do Made in Italy já não evoca de imediato artesanato e qualidade, mas sim uma narrativa de investigações jornalísticas, greves, e acusações que têm destacado as contradições da cadeia de abastecimento. As investigações envolvendo maisons como Dior, Valentino e Armani — acusados de terceirizar parte da sua produção em condições opacas — juntamente com os protestos dos trabalhadores nos distritos têxteis da Toscana e da Emília, tornaram cada vez mais claro o fosso entre o mito e a realidade. A somar a este cenário já delicado estão as inúmeras operações de aquisição que, desde o início do ano, têm visto maisons estrangeiros como a Chanel e a LVMH assumirem o centro das atenções. Movimentações que têm alimentado ainda dúvidas sobre o quão apropriado ainda é falar de “identidade italiana” quando se refere ao Made in Italy. Não surpreendentemente, dentro da indústria se fala agora em Made-in-Italy-washing, termo que lembra o conceito de greenwashing e denuncia o uso instrumental do rótulo como alavanca de marketing, sem uma produção genuína enraizada no território. O projeto de lei parece assim ser uma resposta necessária, mas a questão mantém-se: será suficiente a certificação regulatória para reconstruir a confiança dos consumidores, numa altura em que o luxo vive uma das suas fases mais desencantadas e o público, em vésperas do mês da moda, parece cada vez mais distante das narrativas idealizadas da indústria?

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