Quem tem direito à moda modesta? Entre estratégia comercial, escolha estética e ato político

Ultimamente, as passarelas têm visto menos vestidos decotados. As silhuetas tornaram-se mais macias, as saias alongaram-se e os ombros desaparecem sob camadas de tecido. Assim, Rick Owens, mantendo a sua identidade provocativa e brutal, apresentou para os seus blazers de grandes dimensões SS25 que chegam até os pés, topos com camadas e camadas de tecido envolvendo braços, peito e pescoço, não deixando espaço para a nudez. Este é o sinal mais claro da ascensão da moda modesta, um estilo global caracterizado por peças de vestuário que cobrem mais o corpo, privilegiando cortes soltos e longos. Modest fashion representa uma nova ideia de beleza que rejeita padrões estéticos unívocos e propõe uma linguagem inclusiva, capaz de abraçar diferentes tipos de corpo, culturas, fés e estilos de vida. Não é apenas uma tendência: é uma nova abordagem ao vestuário que está a remodelar hierarquias estéticas e, segundo a Cognitive Market Research, está a influenciar o mercado global. O vestuário modesto em 2024 já vale 65,8 mil milhões de dólares nos Estados Unidos e 72,5 mil milhões de dólares na Europa, e vai expandir-se com uma taxa de crescimento anual de 5% até 2031. Este código de vestimenta não é uma onda passageira, e é por isso que a moda parece ter decidido montá-lo. A razão mais plausível é que a procura mudou. Os jovens, com orçamentos limitados, continuam a escolher entre a fast fashion: tops curtos, minissaias, tops apertados. Uma estética provocativa, muitas vezes ostentada, raramente modesta. A moda modesta é apoiada por uma geração mais madura, economicamente mais estável, que pede sobriedade, cobertura e funcionalidade. Blazers superdimensionados, calças largas, saias midi: peças alinhadas com um estilo de vida mais maduro, mas também com uma estética que rejeita a hiper-sensualidade das tendências adolescentes recentes.

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Max Mara, Resort 2026
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Rick Owens, SS25

Embora a essência da moda modesta sempre tenha existido — desde a modéstia dos anos 50 às religiões com cânones estéticos muito rígidos, como os Mórmons, os Amish, os muçulmanos ou, mais simplesmente, os cristãos ortodoxos — o verdadeiro significado permanece ambíguo. No TikTok, a hashtag #modestfashion é um mosaico sem regras: mulheres muçulmanas a mostrar camadas refinadas, raparigas americanas em vestidos florais e cardigans com legendas como 'God first 'ou 'soft girl modest olho'. Uma estética que muda de face consoante o contexto cultural. E nos Estados Unidos esta ambiguidade toma um rumo político e muitas vezes satírico. Com Trump mais uma vez presidente dos EUA, o conservadorismo está a crescer, a par da sua influência na moda. Mais coberturas parece o estilo pradaria popularizado pela influenciadora americana Ballerina Farm, e o look Ethel Cain inspirado no estilo country grunge da cantora, substituem tendências como a sirene do escritório, abrindo portas a novos imaginários visuais. Entre estas está a mulher comerciante, que recorda o imaginário doméstico dos anos 50. Aventais, vestidos de gola alta, cores pastel: o renascimento da dona de casa perfeita. Depois há o luxo tranquilo, muitas vezes adotado por mulheres da família Trump, frequentemente ligado à moda modesta por causa da sua natureza essencial e elegante. Mas aqui surge a sátira: à modéstia das roupas está emparelhado um estilo de maquilhagem exagerado, que se tornou viral nas redes sociais como maquilhagem MAGA. Por trás da sigla do famoso slogan de Trump Make America Great Again está uma maquilhagem intencionalmente excessiva: tez alaranjada, contorno exagerado, lábios superdimensionados, olhos emoldurados por delineador afiado. Uma estética deliberadamente exagerada que zomba do estereótipo da mulher americana conservadora: hiper-feminina, artificial, plástica. Aqui, a modéstia transforma-se numa máscara grotesca, tornando-se o instrumento através do qual se reafirma uma feminilidade normativa, patriarcal e performativa. Uma paródia que denuncia, ao exagerar, as contradições de uma visão que prega a modéstia mas ostentando artifícios.

@kaaaaaaayx Modest (ish) spring outfit dw I know this shirt isn’t the most modest, but I’m just working with what I already own and trying my best to modify if I can! #modestfashion #grwm #christiancommunity original sound - dachristians

Permanece dentro da esfera social, na cena italiana uma figura-chave é Aya, conhecida online como Pirâmide de Milão. Criativa ítalo-egípcia criada em Milão, tem agora mais de 30 000 seguidores e representa uma das vozes mais consistentes da modesta moda muçulmana. A sua intenção, como afirma um dos seus posts, é trazer a sua identidade e força para espaços de resistência, como o Festival de Cinema de Veneza ou uma primeira fila em desfiles de moda. Veste o hijab com peças de alta moda e, através dos seus looks, conta uma identidade complexa mas poderosa. Cada roupa para ela é um manifesto: camadas, cores, silhuetas suaves. Ela é a prova viva de que a modéstia não significa invisibilidade, mas sim afirmação. Aya conta-nos a história de mulheres muçulmanas que vivem num país ocidental e lembra-nos que o tema da moda modesta tornou-se recorrente nos anos 2000, quando as filhas de imigrantes nascidos em países ocidentais como Itália, Inglaterra ou Holanda enfrentaram uma encruzilhada: as suas raízes ou a nova identidade ocidental. Estas mulheres, diz Aya, escolheram responder a este atrito com uma fusão, mantendo-se fiéis à sua religião, cultura, e aos códigos estéticos que estes implicam, acrescentando um toque de Ocidente. Linhas fluidas, revestimentos de vestuário, e para alguns, hijabs, mas também cores, camadas e acessórios. Essas adolescentes estavam a iniciar a moda modesta como linguagem estética e política, um espaço de expressão para aqueles que se sentiam fora de lugar numa sociedade que muitas vezes se inclinou para a feminilidade extrema.

No panorama internacional, é importante que os grandes nomes da indústria da moda comecem a tomar posição, dando espaço e voz às mulheres que escolhem a moda modesta como estilo de vida. Aya é um exemplo com a Dolce&Gabbana e a sua coleção 2016 feita inteiramente de Abayas, uma peça tradicional feminina característica de alguns países muçulmanos. Algumas marcas, aponta o criativo ítalo-egípcio, mesmo sem reivindicar uma identidade ligada à moda modesta, têm oferecido propostas perfeitas para quem a pratica: linhas fluidas, camadas inteligentes e volumes escultóricos. Entre todos, Prada, Valentino e Gucci quando estava sob a direção criativa de Alessandro Michele. Estes são precisamente os nomes que a Aya nos deu quando lhe perguntámos quais as marcas com as quais ela se sente mais em sintonia. “Com eles, nunca tive problemas para encontrar algo para vestir”, esclarece, contando também como, antes dos desfiles da Prada, lhe foi enviada uma seleção de lenços para usar durante o desfile. Nas últimas coleções de marcas de luxo, esta nova filosofia é cada vez mais aparente. O desfile SS25 Courrèges apresentava, ao lado de minissaias e tops bandeau, peças que pertencem totalmente à estética modesta, mantendo uma aura bastante austera: um casaco de couro preto na altura do joelho reforçado por um capuz ao estilo dos Açores, seguido por uma capa com mangas reduzidas a duas fendas largas na cintura, mal deixando espaço para deslizar as mãos nos bolsos frontais. A Prada no SS25 reafirmou-se como uma aliada da moda modesta com algumas peças extremamente limpas e elegantes, e Valentino, com a chegada de Alessandro Michele, iniciou silhuetas suaves, camisas abotoadas até ao colarinho, e camadas até à exaustão. Olhando mais para as últimas coleções do Resort, destacam-se também algumas peças assinadas por Stella McCartney: a designer inglesa, preservando uma aura de sensualidade, apresentou peças drapeadas que não enfatizam as formas do corpo, em paletas monocromáticas de castanhos, beges e brancos. Embora a modesta estética aqui permaneça bastante calma, devido por exemplo aos ombros expostos, a coleção destina-se a um público mais amplo do que o habitual.

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Dolce&Gabbana, 2016
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Courrèges, SS25
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Prada, SS25
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Valentino, SS25
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Stella McCartney, Resort 2026

A alta moda tenta cada vez mais abraçar esta nova filosofia, quer para acompanhar as tendências, quer para aumentar os lucros, expandindo-se cada vez mais no mercado global e reformulando as suas ofertas para ir ao encontro das necessidades do maior número de pessoas possível. Mas a moda modesta, em 2016, ganhou espaço com a primeira Modest Fashion Week em Istambul, que depois se espalhou por Londres e Dubai em 2017, Jacarta em 2018, Amesterdão em 2019, e Riade em 2022. O último ocorreu no seu lugar de origem em 2024. O mercado árabe está em constante expansão: de acordo com o Boston Consulting Group, o mercado de luxo no Médio Oriente atingiu um valor de 15 mil milhões de dólares em 2023 e, segundo as previsões, poderá atingir 30-35 mil milhões até 2030. Assim, enquanto o Ocidente debate o significado da moda modesta, no Médio Oriente torna-se um ativo estratégico. A visão das Modest Fashion Weeks, conforme consta no site oficial, é promover relações globais e sustentáveis entre todos os players do modesto setor da moda, desde designers a media, dentro de um mercado que hoje vale mais de 370 mil milhões de dólares.

Algumas mulheres, longe de vários imaginários sociais, parecem aproximar-se da moda modesta por razões que nada têm a ver com a religião. Como afirmou a Dra. Samreen Ashraf, da Universidade de Bournemouth, numa entrevista ao The Guardian, muitas mulheres apegam-se a esta maneira de se vestir porque estão cansadas da objetificação e da sexualização por parte dos homens; outras adotam uma forma modesta para se sentirem confortáveis com os seus corpos, muitas vezes porque vivem com distúrbios como a dismorfia corporal e encontram nas roupas cobertas e fluidas a sensação de segurança de que precisam. Mas a liberdade está também em optar por não mostrar, em assumir o controlo da própria imagem, e a moda modesta, deste ponto de vista, é uma ferramenta muito poderosa que inverte essa lógica. Para muitas mulheres, decidir não mostrar o seu corpo é um gesto ativo, consciente e até libertador. É uma resposta a um imaginário coletivo que há anos vincula o valor feminino à exposição corporal. Nesse sentido, a modesta estética movimenta-se entre as necessidades religiosas, o conservadorismo político e os impulsos profundamente pessoais, construindo uma nova linguagem que fala de autodeterminação.

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