As cidades estão a aprender a viver na água? Entre renders e práticas antigas, a arquitectura anfíbia continua a ser um trabalho em curso

Durante anos, as cidades flutuantes têm sido retratadas como imagens do futuro. Ilhas artificiais perfeitas, plataformas auto-suficientes, bairros suspensos sobre o oceano, cheios de passarelas, estufas, painéis solares e casas com vista para a água. Nos renderings parecem sempre leves, limpos, silenciosos. Como se a subida do nível do mar pudesse ser resolvida simplesmente movendo a cidade alguns metros mais adiante, para uma superfície azul.

A realidade, porém, é mais complexa. Viver na água não é uma ideia nova e não pertence exclusivamente a grandes empresas internacionais. Em muitas partes do mundo existem comunidades que há séculos construíram casas sobre palafitas, habitando lagos, rios e deltas, viajando de barco e adaptando a sua vida aos ciclos da água. Muito antes de se tornar uma visão para conferências sobre o clima, a arquitetura anfíbia já era uma prática quotidiana.

A questão, portanto, não é simplesmente se as cidades flutuantes são realmente o futuro. A questão mais interessante é quem está realmente a desenhar esse futuro: aqueles que produzem imagens espectaculares de cidades auto-suficientes, ou aqueles que sempre viveram ao lado da água sem chamar-lhe inovação?

OCEANIX Busan não luta contra o oceano

A questão tornou-se urgente porque as cidades costeiras estão cada vez mais expostas. Segundo o IPCC, cerca de mil milhões de pessoas que vivem em cidades e assentamentos de baixa altitude poderão estar expostas a riscos climáticos costeiros a médio prazo. Sem adaptação e mitigação, os riscos para muitos assentamentos costeiros devem aumentar significativamente até ao final do século. Neste cenário, a água deixa de ser apenas um limite a ser retido com barragens, aterros e barreiras. Torna-se um elemento a incorporar no design.

É aqui que entram em jogo os grandes projectos flutuantes contemporâneos. O OCEANIX Busan, apresentado pela ONU-Habitat em conjunto com a cidade sul-coreana de Busan e a OCEANIX, foi descrito como o primeiro protótipo de uma comunidade flutuante sustentável. O projeto é construído em torno de três plataformas projetadas para acomodar funções residenciais, de pesquisa e hotelaria, com sistemas dedicados para energia, água, alimentos, resíduos e mobilidade. Ou seja, uma cidade que não luta contra o oceano, mas sobe e desce com ele.

O que fica de fora

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Nas Maldivas, a Cidade Flutuante das Maldivas leva esta visão para um contexto ainda mais simbólico. O país está entre os mais vulneráveis à subida do nível do mar, e o projeto, desenvolvido pela Waterstudio.nl e Dutch Docklands, prevê milhares de unidades flutuantes numa lagoa perto de Malé. A ideia é imperiosa porque fala não só de turismo ou luxo, mas de sobrevivência territorial: se a terra se torna cada vez mais frágil, talvez as cidades devam aprender a deixar de depender inteiramente dela.

E, no entanto, estes mesmos projetos revelam o principal risco no debate em torno das cidades flutuantes. Os renderings prometem muitas vezes uma solução total: novos terrenos, novas casas, energia limpa, mobilidade lenta, auto-suficiência, uma relação harmoniosa com a natureza. Mas quanto mais perfeita a imagem, mais naturalmente se pergunta o que fica de fora.

Quem será realmente capaz de viver nestes bairros? Quanto vão custar? Serão cidades acessíveis ou novos enclaves para poucos? E acima de tudo: podem tornar-se uma resposta replicável para as comunidades mais vulneráveis, ou correm o risco de transformar a crise climática num novo produto imobiliário?

Uma transformação lenta

Em Amesterdão, Schoonschip é um bairro flutuante que é muito menos espectacular, mas muito mais habitado. Localizado no Johan van Hasseltkanaal, no norte da cidade, é composto por 46 casas espalhadas por 30 plataformas. Foi desenvolvido pelos próprios moradores, com especial atenção à energia partilhada, materiais sustentáveis e vida comunitária. Não é uma cidade autónoma no oceano, mas um fragmento urbano que aceita a água como parte das suas infraestruturas.

Schoonschip não tenta vender a ideia de escapar à cidade existente. Estende-o, corrige-o, torna-o mais flexível. Mostra que viver sobre a água não precisa necessariamente coincidir com um gesto extremo ou com um novo começo absoluto. Também pode ser uma transformação mais lenta, inserida num verdadeiro tecido urbano, com vizinhos, redes, licenças, problemas técnicos e pessoas que todos os dias precisam de ir às compras, trabalhar, cozinhar, discutir e viver.

Os Países Baixos oferecem também outro exemplo fundamental: as casas anfíbias de Maasbommel. Construídas no âmbito do programa Room for the River, estas casas estão ancoradas ao solo mas podem elevar-se durante as cheias em vários metros, seguindo o nível da água antes de regressarem à sua posição original. Aqui, a arquitetura nem sempre flutua. Flutua quando precisa. Não substitui a cidade por uma visão futurista: modifica a forma como uma casa pode responder a um evento extremo.

Uma fronteira cada vez mais desfocada

Mais atrás no tempo, e muito distantes de qualquer renderização, encontram-se arquiteturas vernaculares à base de água. Na região amazónica, os palafitos são casas construídas sobre palafitas, concebidas para funcionar tanto durante a estação seca como quando o rio nasce e transforma a paisagem. Em Ganvié, no Benim, edifícios de palafitas e vias navegáveis organizam a vida quotidiana no Lago Nokoué durante séculos. No delta do Mekong, alguns protótipos recentes estão a tentar combinar materiais locais, sistemas flutuantes e adaptação climática, com base em práticas habitacionais já enraizadas nos ciclos de inundação.

Viver na água também pode significar vulnerabilidade, falta de serviços, problemas de saneamento, precariedade e risco de exclusão. Mas é precisamente por isso que são importantes. Lembram-nos que a adaptação climática nunca é apenas uma questão de forma. Não basta conceber casas flutuantes se faltarem acesso, manutenção, infra-estruturas, direitos, transportes e relações sociais.

A ideia de que qualquer cidade pode simplesmente começar a flutuar corre o risco de transformar um problema político, social e ecológico numa fantasia arquitectónica demasiado conveniente. Como é que habitamos um planeta onde a fronteira entre a terra e a água se torna cada vez menos estável? A resposta não virá apenas de empresas internacionais, ou das imagens online mais partilháveis. Partirá do diálogo entre tecnologia e conhecimento local, entre novas infraestruturas e práticas antigas, entre grandes visões e pequenas adaptações quotidianas.

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