Vais desistir do Festival Hellwatt de Reggio Emilia? Uma história que se repete

A notícia da possível aparição de Ye no Hellwatt Festival em Reggio Emilia, marcado para julho, reacendeu as esperanças da sua base de fãs italianos. No entanto, mais uma vez, parece que o artista também não se apresentará nesta ocasião. Um desfecho que muitos, no fundo, esperavam, dada a crescente pressão exercida sobre as instituições públicas para seguirem o exemplo do Reino Unido, França, Suíça e Polónia. No cerne da polémica estão as declarações anti-semitas e pró-nazis proferidas pelo artista ao longo do ano passado, depois retraídas através de desculpas consideradas tardias e, por agora, inúteis.

Um país que, com razão, não perdoa

Também em Itália, a dissidência institucional tem sido inequívoca. A presidente da Emilia-Romagna, Michele de Pascale, afirmou que não deve haver espaço, na região ou noutro lugar da Europa, para quem glorifica ditaduras sangrentas ou espalha mensagens de ódio e anti-semitismo. Tomando a mesma posição estiveram Emanuele Fiano, ex-deputado do Partido Democrata e filho de Nedo Fiano, sobrevivente de Auschwitz, que apelou à intervenção do Ministério do Interior invocando leis contra a glorificação do fascismo e da propaganda discriminatória. Seguiu-se Pina Picierno, vice-presidente do Parlamento Europeu com responsabilidade pelo anti-semitismo, que instou o governo italiano a seguir o modelo adotado por outros países europeus.

A acrescentar mais peso a esta bigorna moral foram as palavras de Vasco Erani, ex-presidente da Emília-Romanha por três mandatos e agora presidente do Instituto Alcide Cervi, segundo quem a presença de Ye representaria um tapa na cara da história democrática e antifascista de Reggio Emilia. Esta visão foi partilhada pela Comunidade Judaica de Modena e Reggio Emilia, liderada por Nicoletta Uzzielli, que solicitou formalmente o cancelamento do evento, descrevendo-o como altamente divisivo.

Efeitos colaterais

A pressão política em torno do concerto de Kanye não é a única preocupação que as autoridades locais têm em relação ao sucesso do Hellwatt Festival, um evento massivo agendado ao longo de três fins de semana de julho na zona de Campovolo. O festival envolveu um enorme investimento financeiro e reputacional, que muitos acreditam ser arriscado: à frente da organização está uma pessoa desconhecida dos insiders da indústria e aparentemente sem experiência a este nível.

Como diria a lenda dos concertos cancelados de Ye, a pressão política juntou-se à pressão organizacional, no que parece ser um inevitável efeito dominó. Os sindicatos também pediram esclarecimentos quanto à origem do financiamento do festival, que custará dezenas de milhões de euros, agravado pela ausência de grandes patrocinadores, algo bastante invulgar para um evento desta dimensão.

Vários fatores, incluindo a gestão caótica da venda de bilhetes e métodos falhos de comunicação com o público, alimentaram receios de que a organização por trás do Hellwatt Festival possa revelar-se inadequada para lidar com um evento desta dimensão. Em particular, existem preocupações com a gestão da segurança num evento que deverá acolher dezenas de milhares de pessoas, o que será especialmente complicado na noite em que Travis Scott se apresenta, uma vez que os seus concertos são notoriamente turbulentos.

Uma condenação definitiva?

Como já tinha acontecido no Reino Unido, o apelo salvífico final voltou a ser dirigido à arte e ao poder universal da música. O próprio Ye argumentou que a música pode tornar-se uma ferramenta de partilha, capaz de espalhar mensagens de amor e aproximar as pessoas para além de todas as divisões. Uma alegação que, mais uma vez, parece ter se revelado inútil. Os organizadores do Hellwatt Festival defenderam, no entanto, a sua decisão: Victor Yari Milani, diretor artístico do festival, explicou que também pediu ao artista um pedido público de desculpas em Itália, reiterando que o festival foi concebido como um espaço de livre expressão, inclusão e encontro entre diferentes culturas.

No entanto, uma questão permanece em aberto, tão antiga quanto não resolvida: a separação entre arte e artista. O debate sobre até onde é possível distinguir a obra do seu criador permanece tão espinhoso como sempre, um emaranhado de sensibilidades morais, opinião pública e tensões políticas que, para já, parece quase impossível de desvendar e, ecoando o comunicado divulgado pelo CISL Emilia Centrale: “Afirma que mudou, que quer atuar pela paz e pelo amor, não mais pela suástica e pelo anti-semitismo. Mas a questão mantém-se: o show business importa mais do que os valores constitucionais?

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