
A Black Friday não é a mesma que era As campanhas de desconto estão a ficar mais longas, enquanto o poder de compra diminuiu
Nem toda a gente sabe que a Black Friday nasceu nos Estados Unidos no início dos anos sessenta, pois no dia imediatamente seguinte ao Dia de Ação de Graças, e só a partir do início dos anos 2000 é que o evento comercial se espalhou para o resto dos países ocidentais. Historicamente, o evento marcou o início da época de compras de Natal e estabeleceu-se graças às fortes promoções propostas pelos retalhistas individuais. Se originalmente a Black Friday “virou notícia” sobretudo pela acirrado concorrência entre os clientes nas lojas (sobretudo lojas de eletrónica, onde muitos consumidores conceberam estratégias para agarrar os produtos mais solicitados), com a ascensão do e-commerce e a evolução dos hábitos de consumo, o evento mudou gradualmente de natureza, ficando cada vez mais atrelado à dimensão digital.
Além disso, o período de descontos da Black Friday expandiu-se bastante nos últimos anos: muitas lojas, tanto online como físicas, iniciam promoções ainda antes da data oficial, com iniciativas como a Black Week; as ofertas depois continuam frequentemente nos dias seguintes. Muitas lojas, impulsionadas pela procura crescente, acabaram por prolongar tanto a duração da campanha de descontos que há vários anos, mesmo na Europa, as pessoas chegam a falar do Novembro Negro.
Como se vive a Black Friday hoje
@melissakristintv When you realize how much Black Friday has changed since the #90s & #2000s …Now most people have calmly done all their Black Friday shopping before the day even comes. #90skids #nostalgia #millennial #boomer #genx #blackfriday #fyp Peer Gynt "In the Hall of the Mountain King"(1480595) - 314P
A mudança em curso diz respeito não só à forma como os consumidores compram ou ao calendário correspondente, mas também ao seu poder de compra. De acordo com um relatório recente da Black Friday, hoje 50 dólares valem pouco mais da metade do que eram há 25 anos, quando permitiram que as pessoas comprassem muito mais artigos. A redução do poder de compra afeta também a perceção dos negócios. No início dos anos 2000, 50 dólares foram suficientes para comprar vários artigos, alimentando o entusiasmo pela Black Friday, enquanto hoje o mesmo montante muitas vezes permite comprar não mais do que um único produto. Esta contração económica diz respeito não só à quantidade de bens que podem ser adquiridos mas também impacta a forma como as pessoas vivenciam psicologicamente o evento de compras.
Um estudo realizado pelo The Social Hub, organização que entre outras coisas gere residências estudantis, em conjunto com o instituto de sondagens YouGov, ajuda a esclarecer a questão. O estudo envolveu mais de dois mil italianos e mostra que no país mais de metade dos inquiridos teme que o dia possa acabar por incentivar uma relação compulsiva com as compras. A geração mais nova, especialmente as de 18 a 24 anos, parecem experimentar a Black Friday com maior pressão psicológica — destaca o estudo. Segundo a pesquisa, quase uma em cada cinco pessoas nesta faixa etária afirma que o evento tem consequências negativas na saúde mental, em maior ou menor grau — especialmente em relação à vulnerabilidade económica.
Críticas à Black Friday
O facto é que a Black Friday é desde há anos considerada um fenómeno bastante controverso: graças a descontos generalizados, muitos consumidores acabam por comprar produtos de que nem sempre realmente precisam, numa altura da história em que — por razões ambientais — seria mais apropriado promover a redução de resíduos. De resto, em vários países, o evento comercial é muitas vezes acompanhado de polémicas sobre as condições de trabalho dos funcionários do armazém, cuja carga horária se intensifica durante este período. Não é por acaso que as empresas que mais ganham durante o período de descontos são as grandes plataformas de compras, como a Amazon, que desempenharam um papel crucial em ajudar a introduzir este costume também na Europa.
Estes resultados sugerem uma necessidade crescente de iniciativas que permitam às pessoas vivenciar o evento comercial de uma forma menos frenética. Perante este contexto, projetos que promovam experiências de compra mais autênticas — bem como relações diretas com áreas locais, artesãos ou lojas locais — oferecendo uma alternativa à pressão das compras online estão a ganhar maior relevância e consideração.










































