Até a Checco Zalone não conseguiu entregar Mas talvez o Buen Camino, nos cinemas a partir de 25 de dezembro, consiga fazer-te rir

Durante quase dez anos a Checco Zalone conseguiu representar uma grande fatia da Itália. O pretérito é usado deliberadamente, porque o seu novo filme Buen Camino, lançado cinco anos depois do grande 'big office' Tolo '(48 milhões de euros nas bilheteiras), parece fora de sincronia com a atualidade através da qual, durante muitos anos, o comediante da Apúlia tinha sido capaz de criticar a própria realidade intolerante da Itália.

Os sucessos da Checco Zalone

Uma máscara, a do próprio Checco, que se tornou uma bandeira para o nacional-popular, atingindo um equilíbrio enquanto conquistava a maior audiência que os cinemas italianos modernos alguma vez tinham visto, e ao mesmo tempo conseguindo falar com um número tão vasto de telespectadores que poderia esperar lançar uma mensagem mesmo sobre aqueles de quem estava deliberadamente brincando.

Seria também preciso uma certa desonestidade para não admitir que, ao retratar os hábitos e costumes de Itália a partir de 2009, Zalone conseguiu alcançar alturas que poderiam colocar filmes como Quo Vado? entre as comédias que melhor captaram o tecido social e cultural de que ambos se desenharam e abordaram ao mesmo tempo. Um filme que não seria surpreendente encontrar incluído num programa académico para descrever a obsessão de Itália pela segurança no emprego e as suas idiossincrasias, o ponto alto da carreira de Luca Medici, também conhecido como Checco Zalone, e mais um sucesso de bilheteira impressionante com 45 milhões de euros ganhos.

Mas o que ainda funcionava há alguns anos, com Tolo Tolo — que já, em comparação com filmes anteriores, tinha levantado um pouco as sobrancelhas entre os fãs leais de Zalone — já não se aplica aos tempos em que vivemos. E não por causa da incorreção política da personagem, das piadas sobre Gaza, da Lista de Schindler ou do 11 de Setembro, mas por causa de um guião que parece vir do mesmo parêntese dos seus títulos anteriores, como se não tivesse percebido que o tempo passou.

Buen Camino: enredo e personagens

Em Buen Camino, Checco Zalone deixa de ser um personagem da classe trabalhadora (que não queria trabalhar), mas torna-se um homem rico sem vontade de fazer um esforço, vivendo de rendimentos herdados protegidos pelos sessenta anos de atividade do pai. Um privilégio com o qual nunca consegue ser implacável o suficiente, limitando-se a uma imitação (também anacrónica) de um Genérico Gianluca Vacchi, completo com pessoal doméstico envolvido em danças assustadoras, folheando a superfície de uma figura que poderia ter sido explorada muito mais profundamente e agressivamente do que é, usando o seu estatuto apenas como um contraste contra o pano de fundo escolhido do Caminho de Santiago.

Uma viagem que o protagonista empreende para se reconectar com a filha Cristal, que decidiu embarcar numa experiência espiritual para se libertar de todos os seus bens em busca de algo autêntico, e que, com a chegada do pai, encontra até uma inesperada nova relação com ele. Se, para Zalone, a dramaturgia é a principal preocupação, poder-se-ia perguntar porque é que a de Buen Camino é tão desleixada, desgastada e apressada, tornada não mais coesa nem pela direção de Gennaro Nunziante, voltando a colaborar com o comediante após o rompimento com Tolo Tolo, para um filme que parece à deriva no momento em que chega ao seu fim.

Pior ainda são os ritmos cómicos, que Checco Zalone parece já não conseguir acompanhar, as suas piadas tão fortemente telegrafadas que quando finalmente aterram não podem ser tão engraçadas porque são desprovidas de espontaneidade. Algo que vem muito mais naturalmente para Luca Medici quando apresenta Buen Camino em Roma do que ao seu alter ego cinematográfico.

Está na altura de dizer adeus ao Checco Zalone?

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E isso mostra como talvez tenha chegado a hora não de derrubar o Checco nacional, mas de transformá-lo. Convencer Zalone a colaborar com outro realizador, até para entregar a escrita e focar-se na atuação, deixando os outros assumirem as rédeas ou pelo menos cercar-se de uma caneta afiada, atual e, por que não, jovem.

Agir sem recorrer a caricaturas ou caricaturas, que podem ser os traços que primeiro nos fizeram gostar do seu Checco, mas se ele conseguiu crescer e mudar em todas as versões da personagem que retrata desde 2009, porque não deveria fazer o mesmo que a figura denominadora comum destes mais de quinze anos de carreira? Seria emocionante redescobrir a personagem com este disfarce inesperado. Para já, porém, temos de nos contentar em encontrá-lo ao longo do Bom Caminho.

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