Bilionários querem colonizar o oceano agora Em breve poderemos viver debaixo do mar

Em 1895, Júlio Verne publicou The Floating Island, uma aventura de ficção científica em que empresários ricos recuam para uma ilha artificial capaz de navegar nos oceanos. Alguns anos antes, em 1869, o escritor francês já tinha sido saudado como o pai da ficção científica com Vinte Mil Léguas Submarinas, a história do Nautilus e os mistérios do mundo subaquático. Hoje, em 2025, a humanidade está a transformar ambas as suas visões em realidade. Há já algum tempo que os chamados Techno Utopistas procuram novos horizontes, seja no espaço profundo ou nos cantos mais inacessíveis do nosso planeta, e a última fronteira parece estar a viver nos oceanos, tanto na superfície como no fundo do mar. Um caso notável é o de Rüdiger Koch, um engenheiro alemão de 59 anos, que acaba de entrar no Guinness World Records por passar 120 dias numa casa subaquática a 10 metros de profundidade no Canal do Panamá. O seu alojamento de 304 metros quadrados faz parte do projeto Seapod Alpha Deep da Ocean Builders — uma empresa da qual a Koch é parceira — que visa construir habitats flutuantes para combater o aumento do nível do mar causado pelo aquecimento global e oferecer novos espaços de convivência. Os Seapods têm um “piso superior” que flutua, equipado com todos os confortos, janelas amplas e espaços exteriores, enquanto o piso inferior é uma sala de estar subaquática. Esta sala foi projetada para permitir que as pessoas vivam permanentemente debaixo d'água sem nunca precisarem pisar em terra.

@brutamerica

This man just set the record for longest time living underwater — and he’s staying down there even longer.

UNDERWATER WONDERSCAPES (MASTER) - Frederic Bernard

Na realidade, tecnologias semelhantes existem há décadas, desenvolvidas por várias empresas de engenharia para apoiar a investigação subaquática. Um exemplo é a empresa norte-americana Deepche com o seu sistema de habitat subaquático Sentinel (verdadeiras cápsulas de ficção científica que podem operar de forma autónoma durante 28 dias a uma profundidade de 200 metros), que permite que pessoas e investigadores vivam e trabalhem debaixo d'água por longos períodos e façam novas descobertas no fundo do mar. Mas o que aconteceria se estas tecnologias fossem utilizadas unicamente por bilionários, prontos a colonizar o fundo do mar para lá viver? Este medo está longe de ser abstrato. Em entrevista ao New York Times, Koch e os seus parceiros Chad Elwartowski — um magnata da Bitcoin — e Grant Romundt — um empresário canadiano no campo anti-envelhecimento — declararam que as sociedades contemporâneas estão “numa situação estagnada” e que “viver no mar, ou no espaço, tornou-se uma opção realista, pelo que as classes dominantes 'de volta para casa' terão de pensar no que fazer para tornar os seus países mais países. atrativo.”

Uma visão que mistura regras de mercado desenfreadas, classismo e elitismo, em linha com o manifesto do Seasteading Institute, uma organização 501 sem fins lucrativos (o número indica que nos Estados Unidos é isenta de impostos) fundada, entre outros, por Peter Thiel — um bilionário techno intimamente associado a Trump — que promove comunidades móveis e autónomas em plataformas marinhas em águas internacionais. Estas “micro-nações” teriam governos semi-autónomos, independentes das leis fiscais e sociais, incorporando a abordagem libertária que, segundo Peter Newman — professor australiano de sustentabilidade — entrevistado novamente pelo New York Times, representa apartheid do pior tipo”. Segundo Newman, a colonização dos oceanos corre o risco de se tornar um “pesadelo em que só os ricos podem deslocar-se para aldeias oceânicas futuristas e escandalhar o resto do mundo”. Esta é a habitual espada de dois gumes das descobertas tecnológicas: por um lado, abrem horizontes inimagináveis para toda a humanidade e ajudam a investigação a criar um mundo melhor; por outro lado, podem tornar-se privilégios exclusivos para os 1% mais ricos, como vislumbrámos com a recente missão distópica exclusivamente feminina Blue Origin ao espaço. Será mesmo necessário conquistar os oceanos para os habitar?

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