
A exposição “Living in Black” traz a Milão três dos maiores designers japoneses Issey Miyake, Yohji Yamamoto e Junya Watanabe encontram o trabalho de Alberto Burri

Há um momento preciso em que a cor preta deixa de ser uma cor e passa a ser um sistema. Acontece quando a matéria quebra, quando o tecido rasga, quando a forma perde o controlo. Esta é a premissa subjacente à exposição “Abitare il Nero”. De Alberto Burri aos Designers de Moda da escola japonesa, em exibição de 16 de abril a 5 de maio de 2026 no CUBO Museo d'Impresa do Grupo Unipol. Um projeto com curadoria de Silvia Casagrande, que coloca a obra de Alberto Burri em diálogo com a estética radical de Issey Miyake, Yohji Yamamoto e Junya Watanabe. Enquanto nos últimos anos a moda redescobriu o preto como um código estético dominante, aqui o preto não é uma tendência, mas uma linguagem originária.
A influência da moda japonesa
Tudo começa com uma reflexão profunda sobre a obra-prima de Burri, Nero con punti: a sua tela de juta, costurada e ferida, é uma das imagens mais poderosas da segunda metade do século XX. Não representa algo, é a matéria que sofreu trauma e expõe-a sem filtros. O preto, denso e opaco, não oculta mas amplifica: torna visível a tensão entre destruição e reconstrução. E é precisamente essa tensão que, décadas depois, encontramos à moda japonesa.
Quando nos anos 80 Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo chegaram a Paris, o sistema de moda ocidental entrou em colapso. As suas peças de vestuário, na altura definidas como Hiroshima chic ou look de pobreza, pareciam negar tudo: silhueta, proporção, sedução. Mas na realidade estavam a construir uma nova linguagem. “Quero cicatrizes, falhas, desordem”, diria Yamamoto. E é exatamente isso que vemos: peças de vestuário que parecem inacabadas, furadas, rasgadas. O preto torna-se o meio perfeito para narrar esta estética porque remove o supérfluo e traz tudo de volta à construção.
Como explica a curadora Silvia Casagrande: “Quando o CUBO me convidou para conceber uma visão multidisciplinar para a exposição de Milão na Torre Unipol da obra de Alberto Burri, senti de imediato uma forte ressonância com a sua materialidade, mas também com o eco da restauração experimental que a viu renascer graças às algas japonesas. Tudo exigia a ideia de olhar para lá, para o Japão com os seus cinco elementos, com o vazio que regula a terra, a água, o ar e o fogo. Por isso, questionei esta obra-prima através das lentes de três estilistas da escola japonesa, partindo da sua linguagem estilística experimental; a sua investigação na moda marcou uma ruptura com o esquema rítmico-composicional do código estilístico conhecido até então. O tecido, para eles, é uma metáfora para a pele e os cortes que a adornam, deliberadamente expostos, sugerem o ato de dilacerar a carne humana, abrindo-se a novas visões”.
Perspetivas japonesas
Todos estes designers, de maneiras diferentes, fazem a mesma coisa que Burri fez: trabalham na superfície como se estivesse viva. Cortam, costuram, transformam em algo que narra o tempo, o erro, a transformação. Em Issey Miyake o discurso desloca-se para outro nível: a tecnologia e o corpo. As suas pregas e tecidos de engenharia transformam o preto numa coisa dinâmica, quase líquida. Já não é apenas matéria ferida, mas matéria que se move, que respira. O corpo deixa de estar contido na peça mas ativa-a. Com Junya Watanabe, em vez disso, entramos no território de construção extrema. Patchwork, estratificação, materiais técnicos: o preto torna-se um campo de experimentação contínua. A peça é uma assemblage, um sistema aberto onde cada elemento dialoga com os outros sem nunca se fechar numa forma definitiva. Com Yohji Yamamoto, o preto torna-se uma rejeição da forma fechada e uma afirmação poética: a peça não define o corpo, suspende-o entre a presença e a subtração, abrindo uma zona de ambiguidade perceptiva.
A poética do negro
O preto japonês nunca é verdadeiramente “preto”. É sombra, profundidade, variação infinita. Como escreve Jun'ichirō Tanizaki no seu Livro das Sombras, a beleza não reside em plena luz, mas no claro-claro, nas zonas intermédias. É aí que as coisas acontecem. Traduzido em moda, isso significa algo preciso: não mostrar tudo. Sugerir, evocar, deixar espaço. O preto torna-se assim uma linguagem silenciosa, quase anti-comunicativa, e a moda passa a ser uma forma silenciosa de comunicação, uma linguagem expressiva que não requer palavras. Num momento histórico em que tudo é hipervisível e partilhado, esta exposição chega como uma pausa: um convite a abrandar, a olhar com mais atenção, a entrar nas dobras das coisas. Porque no final, o preto aqui nunca é ausência, mas abre-se ao conceito de possibilidade com potencial expressivo sem precedentes.



















































