
Casamento de crime, tendência ou clichê? Significados da vestimenta formal masculina entre poder, crime e género
Da mesa do escritório ao quarto, o fato masculino sob medida atravessa momentos e lugares do dia a dia, assumindo múltiplos significados. Devido a um património cultural profundamente enraizado, a maioria das pessoas reconhece na roupa masculina formal o sinal de autoridade e poder, associando a galantaria e a ideia tradicional de “respeitabilidade” a uma forma específica de vestir; outros, como alguns criadores de moda e cinema, tentam quebrar essa rígida representação ideológica. Diretores e designers reinterpretam “o uniforme social dos homens” não apenas como traje de escritório, mas enriquecem-no com sugestões eróticas, criminosas e misteriosamente perversas. Na última coleção masculina de Anthony Vaccarello para Saint Laurent, por exemplo, o tema da sensualidade e sexualidade evocado pelo fato masculino à medida é central. Os “fatos aterrorizantes e lânguidos”, como Mark Holgate os descreve na resenha do desfile da Vogue Runway, expressam no seu classicismo um erotismo delicado e uma feminilidade subtil manifestada através de camisas transparentes usadas por baixo dos casacos, com cortes fluidos. Neste sentido, a Vaccarello emprega a técnica de alta moda da farinha associada à moda feminina, combinando materiais com texturas variadas, como o couro, com outros mais macios como a organza. Nessa ocasião, o designer belga explicou à imprensa que se inspirou num homem noturno e misterioso, a meio caminho entre Patrick Bateman do American Psycho e Julian Kay no American Gigolo: assim, o traje formal esconde os segredos da perversão e pode tornar-se uma ferramenta de sedução.
O fato de crime na moda contemporânea
Em linha com Vaccarello para Saint Laurent, os designers da Dolce&Gabbana sempre manifestaram o seu interesse, tanto nos homens como nas mulheres, no dualismo erótico-criminoso provocado pelo fato masculino à medida. Em algumas temporadas, o fato adquire um fascínio mais aristocrático e refinado: notamos isso em smokings usados com camisas de seda ou casacos de pele que lembram “um jovem Helmut Berger num filme Visconti”, como os designers mencionam sobre o desfile Sleek, FW24 men. Em outras coleções, no entanto, o homem da Dolce&Gabbana assemelha-se mais ao “masculino” siciliano, o mafioso vestindo fatos listrados e rosários no pescoço como na última campanha da marca filmada por Steven Meisel. Até algumas marcas emergentes exploraram a estética do traje de crime: é o caso do designer francês Louis-Gabriel Nouchi, que numa das suas coleções recentes inspirou-se explicitamente no corretor-serial killer retratado por Christian Bale, tendo modelos andando na passarela com os rostos ensanguentados. Da Nostalgia Punk dos Enfants Riches Dèprimès à "nova masculinidade" do Egon Lab, tal como escrito por Tina Isaac-Goizé, os códigos dos fatos masculinos interessam às novas gerações de designers que, com diferentes contextos e perspetivas, podem reinterpretá-los em contextos contemporâneos. Willy Chavarria reinterpreta o traje formal masculino com silhuetas dos anos setenta, justapondo-o com a estética mexicana de “cholo boy”, termo que identifica uma subcultura específica das gangues criminosas latino-americanas (mexicanas para ser preciso). Neste contexto, artistas como Mahmood e Bad Bunny, ambos frequentemente vestidos por Chavarria, abraçaram a estética do “bandido” em várias ocasiões: na canção Mónaco, o rapper porto-riquenho, além de usar uma amostra da banda sonora de O Poderoso Chefão, coloca o videoclipe num restaurante típico italiano de Nova Iorque frequentado por chefes e gangsters entre os quais, não surpreendentemente, aparece Al Pacino.
O traje de crime no cinema
Certos géneros cinematográficos, do noir ao thriller, fizeram da estética do assassino em trajes formais a sua marca registada, como Os Assassinos de Don Siegel, um filme de 1964 que inspirou filmes cult de Tarantino como Pulp Fiction e Reservoir Dogs, a John Wick de Chad Stahelski em 2014. Recordamos uma cena emblemática do filme Goodfellas (1990), em que o jovem Henry Hill, criado sobre o “pão e a máfia”, impecavelmente vestido com um fato à medida, apresenta-se à sua mãe que, em desespero, o repreende por se vestir como um gangster. Este fragmento cinematográfico ajuda-nos a compreender como o traje formal dos homens encontrou o seu espaço e expressão visual específica na criminalidade. No Japão, na tradição dos filmes de gângster, foi dada grande importância à colaboração iniciada em meados da década de 1990 entre o realizador Takeshi Kitano e o designer Yohji Yamamoto: os dois criadores reimaginaram a estética dos criminosos ocidentais ao ligar o minimalismo pós-atómico de Yamamoto com as imagens de violência crua de Kitano. Além disso, algumas obras da filmografia de Michael Mann, como Collateral e Public Enemies, exibem uma sensibilidade estética particular em relação ao “uniforme do assassino”. No primeiro, o hitman Vincent, interpretado por Tom Hanks, veste um fato cinza limpo e sóbrio que, no entanto, esconde a decadência dos seus crimes e da sua identidade criminosa. No drama gangster de 2009, Mann conta a história de criminosos americanos conhecidos como John Dillinger e Baby Face Nelson durante a Grande Depressão. Fiel aos factos históricos, o realizador constrói uma estética em torno das personagens perfeitamente alinhadas com os códigos de vestuário da época: fatos com coletes, chapéus de abas largas e luvas de couro, essenciais para não deixar vestígios nas armas utilizadas nos seus crimes. O vestuário formal torna-se nestas narrativas um uniforme disfarçado que cria uma aura de mistério em torno das personagens, mas também de melancolia e solidão como em Le Samuraï de Jean-Pierre Melville.
A moda e o cinema têm tentado manchar a impecabilidade dos fatos masculinos revelando a sua natureza obscura, mas então porque é que na consciência coletiva o traje formal, especialmente num homem, identifica-se mais como cavalheiro do que como assassino? A resposta reside no facto de, como disse o sociólogo francês Bourdieu, a nossa sociedade ter exercido uma espécie de violência simbólica, ou seja, a imposição da categoria estética do homem respeitável de casaco e gravata, tão validado e internalizado que nunca poderá ser totalmente desconstruído. Na filmografia citada, especialmente nos anos 60 e 70, assassinos de terno misturaram-se com o homem comum porque, durante muito tempo, a maioria dos homens, devido ao que é comumente chamado de “grande resignação”, vestiram-se assim: hoje, no entanto, o traje formal indica uma exceção, sugere rigor institucional e sublinha a aristocracia social. Os cineastas perceberam como a estética do processo criminal se tornou um clichê: talvez seja por isso que Michael Fassbender, protagonista do recente filme The Killer como um criminoso profissional cínico, prefere misturar-se na multidão vestindo-se como um turista alemão anónimo e desleixado. Um “homem de terno”, hoje tal como está, poderia ser um suspeito fácil: um homem despelido, por outro lado, é apenas um entre muitos.







































































