O novo luxo doméstico está a sentir-se seguro A casa contemporânea procura não só conforto, mas proteção

Durante muito tempo, o lar foi descrito através da linguagem do conforto. Luz natural, materiais quentes, silêncio, temperatura, privacidade, objetos cuidadosamente escolhidos. O espaço doméstico foi o lugar onde ficou para trás o mundo exterior, uma zona protegida moldada não tanto pela tecnologia como pela própria ideia de intimidade. Hoje, porém, esta imagem já não parece suficiente. A casa contemporânea não é apenas um espaço para viver, mobilar e tornar acolhedor, mas também um local para proteger, monitorizar e controlar.

O crescimento do mercado de segurança doméstica reflete precisamente esta transformação. Segundo os dados do Observatório Internet das Coisas do Politecnico di Milano, reportados pelo Sector Alarm, o setor da segurança cresceu 28% face a 2024, com os sistemas de alarme e videovigilância a representarem 28% do mercado. Ao mesmo tempo, o mercado italiano de casas inteligentes atingiu os 1 mil milhões de euros em 2025, marcando um aumento de 11% face ao ano anterior. A casa conectada, portanto, já não é apenas aquela que acende as luzes remotamente ou ajusta o aquecimento: é cada vez mais uma casa que vigia, relata, previne e reage.

Sentir-se protegido é o novo conforto

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Mas a figura económica é apenas a superfície de uma mudança mais profunda. A segurança do lar, há muito considerada uma matéria técnica ligada a fechaduras, sistemas, sensores e alarmes, está agora a entrar no campo do bem-estar. Já não diz respeito apenas à possibilidade de prevenir uma intrusão, mas à forma como uma pessoa experimenta psicologicamente o seu próprio espaço.

Na perspetiva do Sector Alarm, explica Nicolò Grosoli, Diretor de Marketing da Sector Alarm Itália, as pessoas não querem viver num estado de controlo constante, mas querem sentir-se calmas e livres de preocupações mesmo quando estão longe de casa, a trabalho ou durante as férias. Nesse sentido, a segurança deixa de ser percebida como uma questão meramente técnica, mas como um elemento que afeta diretamente a qualidade de vida.

É uma transformação subtil mas decisiva. Se durante décadas o conforto doméstico esteve associado sobretudo à forma do espaço — o layout dos quartos, a escolha dos materiais, a qualidade da luz, a temperatura, a acústica — hoje também passa por uma dimensão menos visível: a perceção de proteção. Uma casa pode ser bonita, bem mobilada, luminosa e silenciosa, mas se for percebida como vulnerável, perde parte da sua função primária. Já não basta viver num espaço bem desenhado; é preciso poder confiar nesse espaço.

Dentro desta evolução surge um termo incomum mas muito revelador: harpaxofobia, o medo de ser roubado ou de ver o seu espaço privado violado. Não é só o medo do roubo em si, mas a sensação de que a casa, o local que deveria garantir a proteção, poderia subitamente tornar-se frágil. É um medo concreto, mas também simbólico. Porque quando a casa é violada, não é só uma posse material que é tocada: a própria ideia de refúgio está rachada.

O medo de perder o refúgio

 

Segundo Grosoli, quando falamos de casa, o que está em causa não é apenas a proteção dos bens materiais, mas a salvaguarda de um espaço profundamente íntimo, ligado ao bem-estar pessoal. É precisamente esta dimensão simbólica que torna o medo de uma intrusão particularmente impactante a nível psicológico. Dados recolhidos pela Sector Alarm junto de mais de 1.200 clientes mostram que mais de metade das pessoas, 55,8%, sentiram uma sensação de insegurança antes de instalar o sistema. A perceção de vulnerabilidade, portanto, pode pesar significativamente, em alguns casos até mais do que o risco real.

É aqui que a segurança doméstica deixa de ser um acessório e passa a ser uma lente através da qual se lê o presente. Vivemos numa época em que a casa é cada vez mais interativa, conectada e adaptativa. Apps, sensores, câmaras, notificações em tempo real e centros de monitorização permitem controlar o que acontece dentro e ao redor da casa mesmo à distância.

A casa inteligente, nascida no imaginário coletivo como promessa de conveniência, está também a assumir uma função defensiva. Não é usado apenas para acender uma luz, baixar uma persiana ou ajustar um termostato: é usado para saber o que está a acontecer quando não estamos lá, para receber sinais, para delegar parte da vigilância.

Esta transformação altera a relação psicológica com o espaço doméstico. Por um lado, aumenta a perceção de controlo e segurança; por outro, reforça o vínculo com o lar como refúgio do mundo exterior. A Sector Alarm relata que 95,3% dos clientes entrevistados sentem-se mais calmos após a instalação do sistema, e que 83,8% optariam por levá-lo consigo mesmo que mudassem de casa. A figura é interessante porque mostra que a segurança não é vivida apenas como um sistema instalado num local, mas como uma condição que as pessoas desejam manter ao longo do tempo, quase como se fizesse parte da identidade da sua casa.

A casa protegida, mas não a vigiada

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O risco, no entanto, é que a tecnologia desenhada para tranquilizar possa acabar por tornar a ansiedade ainda mais forte. A multiplicação de notificações, alertas, câmaras e sistemas de controlo pode gerar o efeito oposto ao prometido: já não se sentir protegido, mas constantemente em alerta. Uma casa excessivamente vigiada pode deixar de ser um refúgio e tornar-se uma superfície contínua de vigilância. A questão, portanto, não é apenas quão segura é uma casa, mas como essa segurança é percebida.

É neste equilíbrio que está a ser desempenhada uma parte importante do futuro da vida. Segundo Grosoli, a tecnologia só pode ajudar a mitigar a sensação de insegurança se a sua utilização for direcionada. O seu valor não reside no aumento do controlo em termos absolutos, mas em torná-lo mais gerível, discreto e em sintonia com a vida quotidiana. Um uso invasivo da tecnologia, constituído por notificações contínuas e monitorização percebida como constante, sobretudo sem apoio humano qualificado, corre o risco de alimentar a ansiedade em vez de a reduzir.

A segurança doméstica contemporânea parece, portanto, estar a caminhar para um paradoxo: quanto mais avançada se torna, mais tem de aprender a desaparecer. Não no sentido de estar ausente, mas de operar em segundo plano, sem exigir atenção constante. Notificações inteligentes, automações discretas e intervenção humana apenas quando necessário tornam-se elementos centrais de uma nova ideia de proteção. Uma proteção que não obrigue as pessoas a controlarem tudo, mas que lhes permita deixar de o fazer.

Uma casa segura não deve parecer fortificada

Nesse sentido, o fator humano continua a ser determinante. A tecnologia pode garantir velocidade, prevenção e automação, mas não substitui a necessidade de relacionamento e confiança. Saber que por detrás de um sistema existe uma presença humana pronta a intervir, ouvir e prestar apoio quando necessário continua a ser uma parte fundamental da perceção de segurança. Não basta uma casa relatar uma anomalia: é preciso saber que alguém pode interpretá-la, verificá-la e responder. A promessa não é apenas técnica, mas relacional.

A casa do futuro próximo pode, portanto, ser menos espectacular do que imaginamos. Não necessariamente cheios de ecrãs, comandos de voz e objetos inteligentes visíveis, mas atravessados por sistemas silenciosos, integrados, quase invisíveis. Uma casa em que a segurança não se impõe como uma estética de controlo, mas entra no projeto doméstico como uma nova infraestrutura de bem-estar. Tal como a luz, a acústica ou a qualidade do ar, a perceção de proteção passa também a fazer parte da experiência de viver.

Esta mudança também muda a forma como olhamos para o design doméstico. Se a segurança se torna cada vez mais discreta, fluida e integrada na arquitetura da casa, deixa de ser uma reflexão tardia e passa a ser uma componente de design. Já não são apenas dispositivos visíveis, mas sistemas que se encaixam no quotidiano sem a interromper. Já não é a casa do bunker, fechada e defensiva, mas uma casa capaz de proteger sem se tornar rígida, controlar sem oprimir, tranquilizar sem transformar a vida doméstica num protocolo de segurança.

O novo luxo doméstico, então, não é apenas possuir uma bela casa. É poder sentir-se seguro dentro dele. Não como reação ao medo, mas como condição de liberdade. Porque o verdadeiro conforto hoje em dia não é apenas o que torna um espaço agradável: é o que nos permite habitá-lo sem nos sentirmos vulneráveis.

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