Adeus a Sergio Ricciardone, o homem que mudou a música italiana e a discoteca Relembrando Sergio Ricciardone, fundador do mais importante festival de electrónica da Europa

Quando se fala da cultura musical italiana, pensa-se imediatamente em cantores e compositores, no estádio de San Siro lotado na frente de um homem solitário no palco com uma guitarra nos braços. No entanto, na região norte, pelas ruas de Turim, decorre há mais de vinte anos um dos mais importantes festivais de música electrónica da Europa. O C2C (antigo Club To Club) tem uma história profunda que remonta ao início dos anos 2000. Foi em 2002 que Sergio Ricciardone fundou a Associazione Culturale Situazione Xplosiva para a música que todos conhecemos hoje como avant-pop. Antes de o mundo inteiro descobrir o fascínio da música electrónica, antes de a sua estética ser desestigmatizada, Ricciardone foi um dos primeiros a reconhecer o potencial infinito do género e a energia explosiva da sua comunidade. Quem teve a honra de assistir às primeiras edições do festival, quem ainda não perde uma data, e quem só recentemente descobriu o C2C conhece a atmosfera indescritível que surge no Lingotto naqueles dias festivos: a cidade está agitada, as ruas estão vivas, e estranhos no centro da cidade trocam olhares sabendo olhares como se dissessem “Estará lá esta noite, certo?”. Num mundo onde as subculturas são alvo e as vidas jovens são dominadas pela ansiedade, todos os anos o C2C abre as suas portas e convida o público a descobrir o que há de novo, o que é belo. Quando a notícia do falecimento de Sergio Ricciardone foi partilhada na terça-feira, 11 de novembro, o MP Marco Grimaldi tocou cinco segundos de música eletrónica na Câmara de Montecitorio. Graças a Ricciardone e C2C, a música popular bateu às portas das instituições.

Em mais de vinte anos de história, o C2C recebeu centenas de artistas com um enorme impacto cultural. Basta pensar que em 2014, Franco Battiato, um dos maiores cantores e compositores e pioneiro da música eletrónica em Itália, chegou mesmo a aparecer no palco do Festival. Ao lado dele, figuras colossais da música alternativa tocaram no Lingotto, de Aphex Twin a Thom Yorke, de Arca a Sophie, e depois Yves Tumor, Flying Lotus, Caribou, Caterina Barbieri, King Krule e até Swans and Beach House. A par de cenários inesquecíveis marcados por instalações artísticas e espectáculos de luz deslumbrantes, o C2C criou não só música mas também cultura. Enquanto o governo pensava em como parar raves, fechar recintos, e eliminar as poucas infraestruturas em Itália que sustentam as novas gerações, os espaços de Lingotto proporcionaram um ponto de encontro para aqueles que temiam perder o som que os moldava. O Festival introduziu uma nova forma de explorar a música alternativa, bem como uma oportunidade para todos os participantes se reconectarem — consigo mesmos, enquanto a tecnologia levou-nos a perder-nos no ecrã do telemóvel, e com os outros, depois de anos de bloqueio que nos forçaram a recuar para as nossas casas. No final, o clube de Ricciardone não queria nada mais do que isso: “Sejamos honestos, avant-pop não significa outra coisa senão atacante, pessoal”.

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Ricciardone nunca se afixou com rótulos ou limites. Desde o início, pretendia tirar a música eletrónica dos clubes, provando que este género não era apenas a banda sonora da noite mas uma linguagem artística e cultural capaz de contar a história do presente e do futuro. Isto é evidente nos artistas que se apresentaram no palco do festival, desde grandes estrelas até aos talentos mais experimentais como Arca e Caterina Barbieri, bem como nas suas ambições internacionais. Nos últimos anos, a C2C expandiu ainda mais os seus horizontes. A sua chegada a Nova Iorque, com um evento marcado para maio de 2025 no Knockdown Center no Queens, marca um novo capítulo nesta viagem. Como o próprio Ricciardone afirmou numa entrevista à Rolling Stone relatada pelo Artribune: “Trazer o C2C Festival para os Estados Unidos representa um momento crucial na nossa jornada. Estamos entusiasmados em partilhar a nossa visão artística dedicada ao espírito da vanguarda e do novo pop com novas comunidades, criando oportunidades de intercâmbio cultural e continuando a redefinir a música e a arte à escala global”. Esta capacidade de evoluir sem nunca perder a sua identidade é o que sempre fez do C2C um festival único. Não é apenas uma montra para a música mas um lugar onde a arte se torna uma experiência, onde o público desempenha um papel ativo na narrativa. O festival sempre teve como objetivo criar um ambiente onde as pessoas possam sentir-se livres para se expressar, como Ricciardone enfatizou: “As pessoas devem sentir-se livres dentro da experiência do festival [...] O objetivo é criar uma experiência multissensorial que possa dar às pessoas — durante algumas horas — um lugar onde possam expressar as suas liberdades”.

O futuro do C2C parece claro: continuar a explorar novas linguagens, derrubando barreiras entre géneros musicais e disciplinas artísticas, e trazendo a sua visão para contextos cada vez mais internacionais. Se o festival conseguiu tornar o que antes era considerado nicho em algo popular, o próximo objetivo é talvez ainda mais ambicioso: redefinir as próprias fronteiras daquilo a que chamamos música e performance. Sergio Ricciardone deixa para trás um imenso legado. A sua morte é uma perda para a cena cultural italiana, mas o seu sonho continua a viver. O bastão passa agora a quem partilhou a sua visão: garantir que o C2C continue a ser um laboratório de ideias, um lugar onde a vanguarda se torna pop, e onde a música continua a transformar o mundo.

 

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