
McQueen e Givenchy encontram-se na estreia de Sarah Burton para a maison Finalmente um pouco de diversão
No programa de estreia de Sarah Burton para a Givenchy, os assentos eram pilhas de sacos de papel inspirados nos arquivos de arquivo da fundadora. A julgar pelo contraste entre a herança da marca encerrada nessas páginas e o som do papel sendo esmagado sob os assentos dos participantes, pode-se esperar um espetáculo cheio de história e auto-ironia — e é exatamente isso que era. Assumir a direção criativa da maison francesa representa o encerramento de um círculo para o designer, protegido de Alexander McQueen que seguiu os seus passos, primeiro assumindo as rédeas da sua marca e depois juntando-se aos ateliers da Givenchy como fez de 1996 a 2001. Claro, se os designs de Hubert de Givenchy incorporavam uma elegância atemporal, o mesmo não poderia ser dito das obras de McQueen — obras-primas estilísticas que, para além de deixar o público sem palavras, serviram de crítica à indústria da moda e à sociedade moldada pelo paradoxo do luxo nos anos 90. Em suma, Sarah Burton tinha pontos de referência muito diferentes para esta coleção: de um lado, o refinamento tipo Audrey Hepburn da Givenchy, e do outro, o sarcasmo sensacional de Lee McQueen. Considerando a relação tumultuada entre a maison francesa e o enfant terrible—que tinha criticado ferozmente a empresa-mãe da marca, a LVMH, por tentar encadear a sua criatividade em favor do apelo comercial— fundir os dois mundos poderia ter sido uma tarefa complicada para o designer britânico. No entanto, como sempre, Burton conseguiu lidar com as coisas com ordem e equilíbrio, misturando ironia e elegância nas doses certas para criar uma coleção tão charmosa quanto sedutora, comercial mas ainda cheia de peças dignas de conversa.
The seating at Sarah Burton’s debut for Givenchy, made to mimic piles of old paper pattern envelopes. Like the kind stored by M. Givenchy himself. When you sit down, they make a pleasant rustling sound. pic.twitter.com/krScrV0z8x
— Vanessa Friedman (@VVFriedman) March 7, 2025
Sarah Burton sabe como criar um terno feminino à medida. Não há necessidade de olhar para a sua reinterpretação do smoking para a Givenchy para saber o que esperar: silhuetas esculturais, combinações metálicas e atenção meticulosa à cintura. Com jaquetas torcidas em torno de si, os fatos cinza e preto apresentam botões dourados nas costas, enquanto as saias de cigarro caem direto para os bezerros. O decote é acentuado por um corte triangular agudo que mergulha em direção ao abdomen - um detalhe que adiciona um toque ousado a uma peça de roupa convencional. Enquanto o primeiro olhar acena para um certo “drama estilístico” repleto de logótipos e sensualidade que lembram a direção artística de Riccardo Tisci para a marca, o resto das peças deslocam o foco de volta para a herança da Givenchy. Nos mini vestidos, uma camada de malha transparente revela os mamilos, mas as saias de tule, laços no pescoço, drapeado, e seda volumosa lembram a suavidade da atriz norte-americana, musa da Givenchy em Funny Face. Tal como fez na McQueen, a paleta de cores de Burton nesta coleção é muito limitada, excepto pela estreia marcante de um amarelo vibrante — visto num vestido de tule de grandes dimensões e num macacão de malha justo. Os brincos são pedras preciosas enormes emolduradas por quadrados de prata, que lembram joias vintage clip-on; as malas são geométricas, afiadas, pretas ou brancas, e adornadas com finos fechos de metal. Os botins — botas pretas de couro envernizado com a mesma estampa do macacão inicial, Givenchy Paris 1952 — servem como um amuse-bouche para os principais itens que o novo diretor criativo está programado para lançar no mercado.
A influência da obra de Givenchy dos anos 50 é evidente na coleção, apesar de a direção artística de McQueen emergir poderosamente como o verdadeiro protagonista do espetáculo. O bordado — flores e pássaros sobre fundo branco — oferece um aceno romântico aos primeiros desfiles de alta costura do designer inglês, como Search for the Golden Fleece, do SS97, e The Japanese Garden, do SS98. É a única inspiração artística que Burton escolhe emprestar do seu mentor — ela deixou para trás os chifres, as asas e as máscaras inspiradas na mitologia grega, provavelmente porque foram amplamente criticadas pela imprensa de moda na altura. Os casacos, fatos, vestidos e até os bodysuits de corte alto acenam para o requinte de vestuário tanto de Hubert de Givenchy como de McQueen, num delicioso confronto entre Inglaterra e França. Burton infunde nesta coleção uma boa dose de humor - um lado do designer que não tínhamos visto antes - expresso através de cascatas de joias e pedras preciosas quebradas, uma abundância de compactos em pó e espelhos portáteis embelezando bodysuits e minivestidos. É como se uma jovem adolescente dos anos 50 tivesse entrado sorrateiramente no quarto da mãe para brincar com a sua cabina, apenas para acabar numa bela bagunça. Entre fatos de escritório e bodysuits de malha que dão vontade de ir dançar com nada além de botas de couro envernizado e uma pulseira de prata, finalmente, um pouco de leveza. O espetáculo terminou com uma magnífica ovação de pé, levando-nos a acreditar que daqui em diante, será uma boa navegação para Sarah Burton, a nova queridinha do luxo francês.

























































































