
Na Saint Laurent, o foco mantém-se na nostalgia O fato sob medida, a década de 1970 e o 'perigo'
Nesta Fashion Week, entre os designers de maisons de luxo, existe a vontade de se livrar da rigidez do luxo tranquilo, de apresentar novas ideias aos consumidores, e de acelerar o maximalismo. O problema é que, por receio de perder as poucas certezas que se mantêm desde o início da crise setorial, começaram com o travão de mão ligado. Isso também aconteceu no desfile de Saint Laurent ontem à noite, onde foi apresentada uma coleção que tinha muito entusiasmo mas pouca inovação. O diretor criativo Anthony Vaccarello aventurou-se um pouco além da sua zona de conforto, explorando o lado mais “perigoso” da maison, com estampas arrojadas e combinações que nem todos na moda contemporânea poderiam apreciar, mas ao mesmo tempo decidiu ficar confortavelmente sob a sombra deslumbrante do fundador da marca, Yves Saint Laurent. Entre fatos masculinos sob medida que se elevavam sobre os ombros das modelos, óculos que imitavam o olhar profundo do designer e das suas musas nos seus anos dourados, detalhes metálicos inspirados na cultura marroquina e bombers de couro, a coleção era certamente sólida e usável, mas completamente sem imaginação. Mais do que um teste de escrita criativa, o SS25 de Saint Laurent foi um exercício de rastreio. A nostalgia, mais uma vez, triunfou sobre o desejo de surpreender.
Faz 58 anos que Yves Saint Laurent apresentou “Le Smoking”, o primeiro smoking feminino. Diferente da versão masculina por ser adaptado a um corpo com seios e quadris mais pronunciados, o fato desenhado pelo estilista argelino apresentava uma cintura mais alta e mais apertada, calças mais compridas e gola mais redonda. Mantendo a compostura e o rigor do terno masculino, acrescentando detalhes estilísticos destinados a mostrar a forma feminina, Saint Laurent entrou para a história como uma das primeiras estilistas de moda andrógina. Ontem à noite, os fatos feitos à medida tinham jaquetas superdimensionadas com ombros pontiagudos, calças largas e gravatas às riscas — mas não pareciam muito adaptados ao físico feminino. Os primeiros looks destacaram-se das coleções anteriores de Vaccarello para Saint Laurent pelo seu conforto; enquanto nas temporadas passadas a diretora criativa tendia a revelar, mais ou menos, o corpo feminino, ontem à noite cada centímetro de pele estava escondido debaixo da peça. A presença de Yves Saint Laurent é evidente nos primeiros designs da coleção, com referências aos anos 80 e à reinterpretação do fato feminino, mas falta a sensualidade desinibida do designer francês e das suas musas favoritas: as cinturas das modelos são apenas acentuadas pelas mãos, que, deslizadas no casaco, levantam o tecido criando um vinco horizontal.
O ideal da mulher Saint Laurent é complexo, escreve o comunicado de imprensa da marca: “A mulher Saint Laurent adora satisfazer os seus impulsos mais sombrios, uma atração pelo perigo e pelo prazer que orgulhosamente possui na sua agência moderna”. Nesta perspectiva, o fato sob medida apresentado pela maison na SS25 é mais um power suit do que o smoking criado por Saint Laurent na década de 1960. Depois de uma série de fatos superdimensionados, também usados por Bella Hadid, que voltou a cena depois de se tornar o rosto da marca, os vestidos boho-chic até ao chão finalmente trazem alguma cor à passarela, com lamé, decotes profundos, e jaquetas de couro. As joias tornam-se maiores, com colares seguindo a linha do decote até ao umbigo. Com paletas ecoando as cores favoritas de Yves Saint Laurent, que no final dos anos 80 criou casacos semelhantes decorados com motivos inspirados em Van Gogh, a coleção apresenta confrontos de cores combinando azul elétrico, verde petróleo, laranja e ouro em tops sem mangas e minissaias com babados com bainhas de renda a espreitar. Nos looks finais da coleção, vemos a nova direção da liderança criativa da marca, embora ainda olhando para o passado. Na Saint Laurent, Vaccarello tenta propor uma nova versão da marca, mais ousada e vibrante, mas esquece que para sair verdadeiramente da zona de conforto, é preciso abandonar todos os resquícios de nostalgia. Power suit incluído.

























































































