
Os espiões infiltrados da Prada Gravatas, capacetes da polícia e fatos dos anos 50
No mesmo piso que serviu de pano de fundo para o Prada Men's FW24 em janeiro, a escuridão desceu enquanto um modelo coberto por dezenas de arcos de cetim avançava sob pequenos holofotes. As primeiras peças de vestuário da nova coleção FW24 da Prada Women, excepto um episódio rosa doce, são escuras, pretas e esvoaçantes como as penas de um corvo, mas foram emparelhadas com capacetes policiais cobertos de tiras de veludo, penas e lâminas de relva. Saltos pretos impermeáveis até o joelho cobrem as pernas, enquanto toda a leveza de um vestido de túnica se destaca contra a parede escura da Fondazione Prada. A justaposição do chapéu do general com os arcos confunde delicadamente o público: são espiões, mas estão em trajes civis ou uniformes?
Nesta nova coleção estão escondidas todas as grandes obras-primas de Miuccia Prada: acessórios nas cores mais invulgares que dão toques surpreendentes a tecidos técnicos, decotes e fendas que não revelam demasiados centímetros de pele mas ainda conseguem trazer sensualidade ao look, a modernização de silhuetas passadas, com referências às formas de sereia dos fatos femininos há quase cem anos. Há vestígios da Prada dos anos 90 em roxo beringela, verde pistache e cintos finos azuis, dos anos 80 na compostura dos ombros largos, dos anos 2000 na excentricidade das formas e leves toques de ridículo. Parte do espetáculo apresenta fatos cinza que revelam forros de seda nas costas como papel de seda, enquanto outros incluem gabardines e casacos longos usados no ombro com luvas de inverno a combinar, e blusas com grandes decotes de barco unidos por um laço deslumbrante. Entre as referências ao passado destacam-se, para além das linhas rígidas dos anos 50 fatos cortados ao meio, também inserções de pele nas golas, anaguetas de renda, mas sobretudo camisas e aventais estilo empregada, com grandes laços cinzentos no sacro.
O verdadeiro chef d'oeuvre da coleção são os vestidos de seda transparente, uma revisitação de uma das silhuetas características da linha Prada a que se juntou um detalhe romântico nesta temporada, detalhes florais em relevo que constroem pontos suaves ao redor dos looks. Para além da ironia dos chapéus, que continuam a atrair a atenção do público ao longo do espetáculo, surgem novos acessórios, desde óculos de armação quase imperceptíveis com lentes grossas a bolsas gradientes em tons de caramelo, desde cintos usados para sustentar as bolsas a grossos artigos de couro castanho, tão macios que parecem estar cobertos por um véu de cacau em pó. Neste espetáculo, a Prada prestou homenagem ao conhecimento histórico mas também encapsulou perfeitamente todos os méritos que a moda italiana deve ao génio de Miuccia Prada e do co-designer Raf Simons. Contação de histórias, cor, invulgares e auto-expressão feminina desinibida. Mas acima de tudo, a roupa.
































































































